A Assembleia Geral da ONU é o maior fórum diplomático do mundo e reúne anualmente os 193 Estados-membros com o objetivo de debater questões de paz e segurança, desenvolvimento sustentável e direitos humanos.
Este ano, a ONU completa 80 anos sob o lema “Better together: 80 years and more for peace, development and human rights”. O contraste, no entanto, é inevitável: enquanto o discurso celebra união, a realidade mostra divisões quanto aos posicionamentos dos líderes mundiais. Conflitos como a guerra na Ucrânia e o genocídio em Gaza expõem a fragilidade das instituições multilaterais. Surge então a pergunta central: o multilateralismo ainda é eficaz diante de um mundo cada vez mais polarizado?
Os sinais de crise estão evidentes. O Conselho de Segurança permanece paralisado por vetos sucessivos, impedindo respostas rápidas a crises humanitárias. As negociações climáticas sofrem retrocessos, com países descumprindo metas já pactuadas. E cortes orçamentários afetam missões de paz e operações humanitárias em regiões críticas. O multilateralismo, antes visto como caminho para consensos, hoje se mostra limitado diante de rivalidades geopolíticas crescentes.
Essa tensão ficou clara nos discursos da semana em Nova York no debate entre os líderes na octogésima sessão em 23 de setembro de 2025. Líderes dos Estados Unidos, China e Rússia trocaram acusações diretas sobre segurança internacional e soberania. Representantes de países do Sul Global cobraram mais voz e assentos permanentes no Conselho de Segurança. Enquanto isso, apelos por cessar-fogo imediato em Gaza e maior apoio humanitário ao Sudão foram ouvidos com pouca convergência prática entre os blocos de poder.
Por exemplo, o presidente norte-americano Donald Trump em seu discurso voltou a defender uma visão soberanista e criticou o “globalismo” da ONU, reforçando que cada nação deve cuidar primeiro de seus próprios interesses. Em contraste, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva destacou a necessidade de cooperação para enfrentar desigualdades, cobrar soluções para Gaza e defender a reforma do Conselho de Segurança. Já o presidente da França Emmanuel Macron concentrou-se na defesa da democracia liberal, da regulação da inteligência artificial e da urgência climática. Enquanto isso, líderes africanos, como o presidente de Gana, Nana Akufo-Addo, ressaltaram o desequilíbrio estrutural da ordem internacional, lembrando que a África continua sub-representada nos centros de decisão global, apesar de ser um dos continentes mais afetados por conflitos e mudanças climáticas.
Dado isso, percebe-se que a cooperação multilateral atravessa uma das maiores crises desde a fundação da ONU. O futuro do multilateralismo dependerá da capacidade dos Estados não apenas de defender interesses próprios, mas de renovar compromissos coletivos em favor da paz e da dignidade humanas.

