Mundo em Perspectiva

Líderes, nações e estruturas: como se explicam as decisões globais

Imagem: Norwegian Mission to the UN – 14.09.2022

Kenneth Waltz, em sua obra O Homem, o Estado e a Guerra (1959), delineou três níveis de análise para localizar as causas dos fenômenos internacionais. Estes níveis ajudam a distinguir entre fatores internos e externos na análise da política internacional ao nível do indivíduo (atores), do Estado e do sistema internacional. Com essa análise, é possível interpretar os dilemas do presente como guerras no Oriente Médio, crises migratórias, posições em cúpulas da ONU ou no Conselho de Segurança. Afinal, decisões que parecem arbitrárias ganham clareza quando observadas sob diferentes camadas de influência.

No primeiro nível, o foco é nos atores, ou seja, os líderes mundiais analisando como personalidades, ideologias, percepções distorcidas, ambições e erros podem alterar o rumo de uma política externa. Por exemplo, o recente discurso de Donald Trump na Assembleia Geral da ONU reforçou o nacionalismo e o ceticismo em relação ao multilateralismo. Já Benjamin Netanyahu manteve uma postura rígida sobre Gaza, priorizando segurança e legitimidade doméstica, mesmo diante de pressões internacionais. A partir dessas posturas, pode-se concluir que o posicionamento tomado pelos líderes citados se dá por fatores racionais e individuais tal como o discurso de Trump reflete o que é visto desde a sua campanha eleitoral uma retórica dura, nacionalista e voltada à defesa da soberania americana, o que molda sua narrativa no ambito internacional, evidenciando como nível individual do líder influencia a política internacional.

Ao nível do Estado, observa-se como características domésticas determinam as ações de um país, sendo essa influenciada por tipo de regime (democrático, autoritário), interesses nacionais, economia, pressões internas, o nacionalismo e a cultura. A Rússia, sob o governo de Putin, tem suas decisões condicionadas por interesses estratégicos históricos, como acesso ao Mar Negro e influência regional em disputa na guerra da Ucrânia.

No nível do sistema internacional, o sistema é definido por sua estrutura e pela distribuição de capacidades (poder relativo) entre os Estados. Uma vez que, o sistema internacional possui uma estrutura anárquica que influencia o comportamento dos Estados, tomando decisões domésticas moldadas pela ordem global. Isso pode ser visto na situação entre EUA e China em que pode resultar nos demais países reorganizar alianças, tomar partido ou a fortalecer coalizões alternativas, como os BRICS.

Por isso, compreender os acontecimentos recentes no cenário internacional fugindo de análises simplistas utiliza esses três níveis para demonstrar como os líderes moldam decisões, mas como essas decisões são, por sua vez, condicionadas pelas dinâmicas domésticas e estruturais. A seguir temos análise dos três níveis sobre as políticas dos Estados Unidos, Israel e Rússia.

  1. Estados Unidos

Analisando o governo de Donald Trump ao nível do Estado, a sua retórica é voltada contra a imigração, o seu discurso reforça barreiras para a entrada de imigrantes e também à permanência deles no país. Baeando-se na anaise do individuo, essa postura reflete seu perfil nacionalista e a imagem formada em sua campanha política.

No terceiro nível (do sistema), a posição de Trump se alinha a uma tendência global de endurecimento migratório, visível também na Europa, como forma de conter os crescentes fluxos migratórios.

  1. Israel

Os ataques de Israel em Gaza se revelam como uma estratégia do Estado. A partir da política de ataques a Gaza, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, justifica como defesa da segurança nacional após ofensivas do Hamas. No nível individual, sua liderança é marcada por uma visão de segurança absoluta, com pouca abertura para concessões. No nível do Estado, a postura responde à pressão de setores conservadores e à opinião pública israelense, que exige retaliação firme. Os ataques também são ações padrões da estratégia militar israelense, mirando na escassez de recursos humanos básicos,como em Gaza.

No sistema internacional, porém, a política de Netanyahu encontra resistência indo a um caminho que não representa a maioria com a continuidade da guerra mesmo diante de pedidos de cessar-fogo na ONU, que são constantemente bloqueados por vetos, isolando Israel diplomaticamente mas garantindo sua continuidade bélica. O sistema internacional tenta impor restrições (leis internacionais e Direito Internacional Humanitário), mas a escala dos ataques demonstra a capacidade de Israel de ignorar ou violar essas leis. Então, mesmo que o sistema estabeleça normas , por parte de Israel elas são contestadas e desrespeitadas na prática.

  1. Rússia

No primeiro nível, Vladimir Putin sustenta a guerra na Ucrânia como parte de um projeto estratégico de reafirmação russa que mobiliza a guerra como estratégia de legitimação para a sobrevivência do seu regime. Ele usa a retórica de securitização para justificar a repressão a opositores.

No nível do Estado, a narrativa de segurança e soberania mantém apoio interno, reforçado por propaganda estatal e controle da oposição. O conflito contra a Ucrânia reforça o nacionalismo e a supremacia dos “valores tradicionais” russos sobre a influência dos valores ocidentais.

No plano sistêmico, a guerra se prolonga porque expõe o impasse de um mundo multipolar: a Rússia enfrenta sanções do Ocidente, mas ainda encontra aliados ou parceiros estratégicos, o que reduz seu isolamento e lhe permite resistir às pressões internacionais.

Em suma, os três níveis de análise não competem entre si, mas se complementam para explicar a complexidade da política mundial. Um discurso inflamado de Trump, as ofensivas de Netanyahu em Gaza ou a insistência de Putin na guerra só podem ser entendidos quando articulamos suas personalidades, os interesses nacionais que representam e as pressões da ordem global em que estão inseridos. Olhar para a política internacional por essa análise permite entender que a realidade política trata-se de um sistema complexo em que decisões individuais, estruturas internas e dinâmicas sistêmicas se entrelaçam, moldando as relações interestatais.

“A opinião deste colunista não reflete, necessariamente, a opinião da RedeTV! Espírito Santo.”

Formada em Relações Internacionais e graduanda em Administração, possui atuação voltada para direitos humanos, política internacional e questões sociais contemporâneas. Pesquisadora na área de políticas públicas e proteção social, dedica-se ao estudo de temas como migrações forçadas, refúgio, gênero e desigualdades.
Integrou iniciativas de acolhimento a refugiados no Espírito Santo e acompanha de perto debates globais sobre questões humanitárias e cooperação internacional.

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