
A última pesquisa Quaest para o Governo do Espírito Santo, divulgada neste sábado (3), véspera da eleição, chega cercada de questionamentos. Não apenas pelos números apresentados, mas principalmente quando o levantamento é confrontado com a própria série do instituto e com episódios de eleições anteriores em que houve diferenças expressivas entre pesquisas realizadas durante a campanha e os resultados posteriormente registrados nas urnas.
Contratada pela TV Gazeta, a Quaest apresenta Lorenzo Pazolini (Republicanos) com 45% dos votos válidos e Ricardo Ferraço (MDB) com 41%. Helder Salomão (PT) aparece com 12% e Breno Barcelos (Missão), com 2%. Como a margem de erro é de dois pontos percentuais, Pazolini e Ferraço estão tecnicamente empatados. Foram entrevistados 1.800 eleitores nos dias 2 e 3 de outubro, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado na Justiça Eleitoral sob o protocolo ES-09011/2026.
Os parâmetros estatísticos estão apresentados e a pesquisa está formalmente registrada. A questão que merece análise é outra: o que explica uma mudança tão significativa na fotografia da disputa justamente nos últimos dias da campanha? A pergunta ganha relevância quando se observa que a alteração não aparece apenas na comparação com outros levantamentos, mas dentro da própria série da Quaest.
A Quaest mudou sua própria fotografia
Em agosto, o instituto apresentava Ricardo Ferraço com 35% das intenções de voto, sete pontos à frente de Pazolini, que registrava 28%. Em 25 de setembro, a vantagem havia praticamente desaparecido, mas Ferraço permanecia numericamente à frente, com 33% contra 31%. Agora, na última rodada antes das urnas, considerando os votos válidos, a ordem se inverte: Pazolini aparece com 45% e Ferraço com 41%.
A mudança também aparece na simulação de segundo turno. Na rodada anterior, Ferraço registrava 43% contra 38% de Pazolini. Na pesquisa deste sábado, Pazolini passa a aparecer com 41% e Ferraço com 39%. Em um intervalo curto, portanto, a posição numérica dos dois principais candidatos se inverte nos dois cenários apresentados pelo instituto.
A comparação com o Real Time Big Data acrescenta outro elemento a esse questionamento. Em levantamento divulgado em 30 de setembro, Ricardo Ferraço aparecia com 47% dos votos válidos, contra 39% de Pazolini. Poucos dias depois, a Quaest apresenta Pazolini numericamente à frente. Diante de fotografias tão diferentes em um intervalo reduzido, uma pergunta se impõe: qual delas está conseguindo captar com maior precisão o eleitorado que irá às urnas?
Histórico de erros em 2022 reforça os questionamentos
É nesse ponto que o histórico recente da Quaest ganha importância. Uma reportagem publicada pelo Blog do Estado reuniu casos das eleições de 2022 em que levantamentos do instituto apresentaram diferenças relevantes em relação ao cenário posteriormente registrado nas urnas. São episódios que não permitem antecipar o que acontecerá no Espírito Santo, mas ajudam a explicar por que a pesquisa deste sábado está sendo observada com cautela.
São Paulo foi um dos exemplos. Durante a campanha para o Governo, levantamentos chegaram a apresentar Fernando Haddad numericamente à frente de Tarcísio de Freitas. No primeiro turno, entretanto, Tarcísio terminou na liderança com 42,32% dos votos válidos, enquanto Haddad registrou 35,70%. A diferença não ficou restrita aos percentuais: a ordem dos dois principais candidatos encontrada nas urnas foi diferente daquela apresentada em levantamentos realizados durante a campanha.
Na eleição paulista para o Senado, outra discrepância chamou atenção. Pesquisas mostraram uma disputa mais equilibrada entre Márcio França e Marcos Pontes, mas o resultado eleitoral terminou com Pontes eleito com 49,68% dos votos válidos, contra 36,27% de França. A diferença final entre os dois ultrapassou 13 pontos percentuais, produzindo uma fotografia das urnas consideravelmente diferente daquela observada em levantamentos anteriores.
A Bahia também entrou nesse histórico. Pesquisas realizadas durante a campanha chegaram a apresentar ACM Neto com vantagem expressiva sobre Jerônimo Rodrigues. Quando os votos foram apurados, porém, Jerônimo terminou o primeiro turno com 49,45% dos votos válidos, contra 40,80% de ACM Neto, ficando próximo de vencer a eleição já naquela etapa e confirmando posteriormente a vitória no segundo turno.
Esses episódios precisam ser analisados levando em consideração a data de cada pesquisa. Quanto maior o intervalo entre a coleta e a eleição, maior a possibilidade de mudanças reais no comportamento dos eleitores. Ainda assim, quando aparecem diferenças expressivas, inversões de posições e distâncias consideráveis entre determinadas pesquisas e o resultado posterior, existe material legítimo para análise crítica.
Discrepâncias não devem ser ignoradas
O histórico de 2022 não autoriza afirmar antecipadamente que a Quaest esteja errada agora no Espírito Santo, muito menos sustenta, por si só, qualquer acusação de fraude ou manipulação. Pesquisa eleitoral é uma estimativa estatística baseada em uma amostra e está sujeita a margem de erro, critérios de ponderação e diferenças metodológicas.
Isso também não significa que discrepâncias devam ser simplesmente descartadas sob o argumento de que pesquisa é apenas uma fotografia do momento. Justamente porque levantamentos eleitorais ocupam espaço relevante no debate público, seus números, metodologias e históricos de desempenho também estão sujeitos ao escrutínio da sociedade.
No caso capixaba, o questionamento nasce de uma combinação concreta de fatores. A Quaest mudou a posição numérica dos dois principais candidatos dentro de sua própria série em poucos dias, apresenta agora uma fotografia diferente de levantamento recente de outro instituto e possui antecedentes de eleições em que determinadas pesquisas ficaram significativamente distantes do resultado posteriormente registrado.
Senado também exige cautela
A disputa pelo Senado acrescenta outro ponto de atenção. Na pesquisa espontânea da própria Quaest, 63% dos entrevistados ainda aparecem como indecisos às vésperas da eleição. O número ganha ainda mais importância porque cada eleitor poderá escolher dois candidatos ao Senado.
Com quase dois terços dos entrevistados sem indicar espontaneamente suas escolhas, os resultados da pesquisa estimulada precisam ser interpretados com cautela. Existe uma diferença importante entre o eleitor lembrar espontaneamente de seus candidatos e escolher nomes depois de receber uma lista de opções. Em uma disputa com duas vagas e elevado nível de indefinição, essa diferença metodológica pode ter peso relevante na fotografia apresentada.
As urnas serão o confronto definitivo
A pesquisa divulgada neste sábado não deve ser descartada simplesmente porque seus números provocaram estranheza, mas também não precisa ser tratada como uma fotografia incontestável da eleição capixaba. O histórico recente recomenda cautela e, sobretudo, comparação.
A Quaest chega à véspera da eleição apresentando uma inversão na posição numérica de Ricardo Ferraço e Lorenzo Pazolini dentro de sua própria série. Ao mesmo tempo, episódios de 2022 mostram que determinadas pesquisas do instituto registraram diferenças importantes em relação ao cenário posteriormente encontrado nas urnas.
A questão central permanecerá aberta até a apuração: a Quaest conseguiu identificar uma movimentação tardia do eleitorado capixaba ou teremos novamente uma diferença relevante entre a fotografia apresentada pelo instituto e aquela revelada pelas urnas?
Neste domingo, será o voto dos capixabas que permitirá responder.





