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Soberania Grotesca: O Marketing da Narrativa

A soberania, tradicionalmente concebida como a autoridade legítima e suprema de um Estado sobre seu território e população, ganha contornos disformes quando observada através do prisma do grotesco.

Nesse sentido, o conceito hipotético de “soberania grotesca”, de Foucault, pode ser interpretado como uma forma de exercício do poder que abandona os limites da racionalidade institucional e da lógica democrática para se apresentar como uma caricatura de si mesma, autoritária e centralizadora, atingindo níveis ilógicos que ultrapassam os limites do absurdo.

A soberania grotesca não é apenas um excesso de poder, mas um poder que se excede de maneira disfuncional, teatral e desproporcional. Ela não apenas se impõe, mas se exibe. Sua força não reside na legitimidade, mas na encenação diante de uma plateia hipnotizada ou amedrontada pela estridência daqueles que se alimentam do espetáculo, da desinformação e do caos, ancorando-se na manipulação e na distorção da verdade e da razão.

Líderes que se valem da “soberania grotesca” não governam, eles performam, seguindo o molde da emoção e do sentimento da massa carente e doente. Cada gesto é calculado para gerar impacto, cada medida extrema é vendida como prova de coragem ou de legalidade, mesmo que rasgue princípios básicos do Estado de Direito. O grotesco, nesse contexto, é a máscara do poder que se apresenta como salvador enquanto arruína a própria estrutura institucional que o sustenta, decretando o fim da necessária política.

Esse tipo de soberania corrompida se manifesta comumente em regimes personalistas, em democracias em erosão ou em Estados capturados por lideranças messiânicas tatuadas de únicas ou últimas, uma roupagem meramente apocalíptica, a “parousia” (grego: παρουσία) teológica do fim. Suas marcas incluem o uso estratégico do ridículo, a normalização do absurdo e a inversão da lógica básica institucional, onde leis e normas passam a ser ferramentas de intimidação, não de proteção; o patriotismo vira instrumento ambidestro e ridicularizado por quem deveria ensinar, cultivar e honrar.

É importante frisar que a “soberania grotesca” é um conceito analítico e não jurídico, que serve somente como lente crítica para entender contextos onde a forma do poder permanece, mas sua essência se desfaz como água que escorrega pelas culposas mãos, traduzindo a figura do governante em personagem, e a população em cúmplice ou refém desse malabarismo que impiedosamente castra e mata.

Em tempos de crise democrática e instabilidade institucional, compreender os sinais da “soberania grotesca” é um passo importante para resistir ao espetáculo autoritário ou não aceitar a fingida empatia social, a famosa engenharia das enganosas convicções.

É justamente no meio desse conflito entre o espelho e a imagem que nascem as narrativas, as incontáveis “verdades” calcificadas nas diferentes realidades do dia a dia da população e que atendem ao paladar político daqueles que dominam ou querem dominar. O importante é o domínio, a mordaça ou a imposição, pois as grades das narrativas não são visíveis a todos e poucos percebem os seus efeitos práticos: o cárcere da razão e da reflexão.

Os marqueteiros da política já descobriram isso e estão usando a vulnerabilidade intelectual da massa como impulsão para mistificar figuras, personagens e perfis que geram sensações coletivas, um helenismo que acorrenta o imaginário do medo e da esperança. A tática é clara: o político é a Coca-Cola do marqueteiro e nós somos os consumidores dessa bebida alucinógena que rouba a mínima lucidez daqueles que decidem os rumos políticos e administrativos do país.

Enfim, o poder não deveria ser uma fajuta entidade estática, mas sim um conjunto de relações em constante movimento, onde todos os indivíduos estão envolvidos como agentes e receptores: uma verdadeira política participativa, uma democracia construída e qualificada, sem os traços da soberania grotesca.

É natural de Vila Velha – ES, cidade onde reside. Graduado em Teologia e Ciências Políticas, com especialização em pesquisa, comunicação e estratégia política. Já atuou como secretário municipal de Gestão e Planejamento e como coordenador de comunicação parlamentar. Há quase duas décadas estuda e participa dos movimentos políticos do cenário nacional e do Estado do Espírito Santo, com análises e projeções.

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