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⁠Uvas & Vinhos

Dona Ferreirinha: a mulher que não deixou o Douro morrer – Parte II

Como dissemos na coluna anterior, daremos continuidade a história de Dona Ferreirinha, a mulher que não se abateu com a viuvez e tornou-se uma das maiores referências na produção de vinho no Douro, região norte de Portugal.

Há mulheres que atravessam a história. Outras atravessam gerações.

E há aquelas que parecem permanecer na própria terra.

Quando se fala do Douro, de suas encostas vertiginosas, dos relevos desenhados à mão e das videiras que parecem desafiar a gravidade, um nome surge quase naturalmente: Antónia Adelaide Ferreira.

Para os livros de história, D. Antónia. Para os homens e mulheres que trabalhavam nas suas quintas, simplesmente Ferreirinha.

Nascida em 1811, em Godim, no Peso da Régua, Antónia Adelaide Ferreira pertencia a uma família profundamente ligada ao vinho. Mas não foi a fortuna herdada que a transformou em uma das figuras mais extraordinárias da viticultura portuguesa. Foi a capacidade de reconstruir, administrar e acreditar quando tudo parecia conspirar contra ela.

Sua história começa como tantas outras histórias do século XIX — dentro de uma família abastada e em uma sociedade na qual o destino das mulheres era, em grande parte, decidido pelos homens.

Uma viúva diante de um império.

Antónia casou-se ainda jovem com seu primo, António Bernardo Ferreira II. O casamento, entretanto, não lhe trouxe apenas uma família: trouxe também a responsabilidade sobre um vasto patrimônio vitivinícola.

Em 1844, aos 33 anos, ficou viúva.

Foi então que começou a nascer a verdadeira Ferreirinha.

Em vez de se afastar dos negócios, assumiu o comando. E encontrou diante de si não apenas propriedades e vinhas, mas também dificuldades financeiras, disputas comerciais e um Douro que atravessava sucessivas crises.

Com o apoio do administrador José da Silva Torres — que mais tarde se tornaria seu segundo marido —, passou a expandir propriedades, reorganizar negócios e investir de maneira cada vez mais ousada na produção de vinho.

A sua visão era incomum para a época.

Dona Antónia não queria simplesmente possuir terras. Queria transformá-las em propriedades produtivas, modernas e economicamente sustentáveis.

E uma de suas maiores demonstrações dessa visão estava muito distante dos centros tradicionais do Douro.

Estava no Vesúvio.

A Quinta que se tornou seu reino

A história da Quinta do Vesúvio começara antes de Dona Antónia.

Em 1823, seu tio e sogro, António Bernardo Ferreira, comprou uma enorme propriedade então conhecida como Quinta das Figueiras. Durante anos, centenas de homens e mulheres trabalharam para transformar aquela paisagem em uma das mais extraordinárias propriedades do Douro.

Foram plantados cerca de 150 hectares de vinha e, em 1827, ficou concluída uma monumental adega com oito lagares ( O principal sinônimo de lagares de granito (plural de lagar, tanques ou recipientes onde se esmagam uvas ou azeitonas).

Quando Dona Antónia assumiu o patrimônio, porém, o Vesúvio ganhou uma nova dimensão.

Ela passou longos períodos na propriedade e transformou-a em uma espécie de centro de comando para administrar suas extensas propriedades durienses. Sob sua gestão, a quinta alcançou o prestígio que a faria entrar para a história do Douro.

E existe um detalhe particularmente revelador.

Em 1868, Dona Antónia tomou uma decisão revolucionária para seu tempo: engarrafou vinho produzido em uma única quinta, identificando-o com a propriedade.

Era algo pouco habitual no Douro do século XIX.

Nascia, assim, aquele que é considerado o primeiro vinho de quinta engarrafado conhecido da região: o Porto Vintage Quinta do Vesúvio 1868.

Mais do que produzir vinho, Dona Antónia começava a construir uma ideia que hoje parece óbvia: a identidade de um grande vinho também pode nascer do lugar de onde ele vem.

Quando a filoxera chegou

Mas o Douro não lhe daria descanso.

Na década de 1870, a filoxera chegou aos vinhedos e transformou a paisagem vitícola europeia em um cenário de devastação.

As raízes das videiras eram atacadas e as plantas morriam. Vinhas inteiras desapareceram. Produções despencaram. Proprietários perderam fortunas.

Para muitos, a solução foi abandonar a terra.

Para Ferreirinha, foi estudar.

Dona Antónia viajou até Inglaterra, buscando informações sobre métodos mais modernos de combate à praga e novas técnicas de produção vitivinícola. Ao retornar, passou a experimentar novas castas, técnicas de enxertia e o uso de porta-enxertos de videiras americanas, resistentes à filoxera.

Não era apenas uma proprietária procurando salvar suas próprias vinhas.

Ela estava tentando encontrar uma saída para o Douro.

E talvez uma das maiores provas de sua inteligência empresarial tenha surgido justamente quando a crise parecia mais devastadora.

O muro que nasceu da tragédia

Na Quinta do Vesúvio, a filoxera reduziu drasticamente a produção.

Dona Antónia poderia simplesmente ter dispensado trabalhadores.

Fez o contrário.

Para manter as famílias empregadas e garantir-lhes alguma fonte de rendimento enquanto as vinhas eram recuperadas, mandou construir um gigantesco muro de pedra seca ao redor da propriedade.

Dezesseis quilômetros de muro.

Pedra sobre pedra.

Enquanto a filoxera destruía as videiras, os trabalhadores construíam uma obra que ainda hoje marca a paisagem do Vesúvio.

É um dos episódios que melhor explicam quem foi Dona Antónia.

Para ela, uma quinta não era apenas uma coleção de hectares.

Era uma comunidade.

A sobrevivência do vinho dependia também da sobrevivência de quem trabalhava na terra.

Uma empresária antes do seu tempo

Outra característica extraordinária de Ferreirinha foi sua capacidade de diversificar.

Quando a vinha estava em crise, ela plantou oliveiras, amendoeiras, laranjeiras e outras culturas.

Não esperou que a natureza resolvesse o problema.

Criou alternativas.

E, quando a filoxera finalmente começou a ser controlada e os vinhedos puderam ser replantados, sua visão voltou a se concentrar naquilo que conhecia melhor: o vinho.

Há ainda outro episódio pouco lembrado.

Já aos 76 anos, quando muitos imaginariam que uma mulher de sua idade procuraria finalmente descansar, Dona Antónia iniciou um dos seus projetos mais ambiciosos: a construção da Quinta do Vale Meão, no Douro Superior.

As obras começaram em 1887 e só terminaram em 1896, justamente no ano de sua morte.

A escolha do local também revela sua extraordinária capacidade de enxergar oportunidades onde outros viam dificuldades. Enquanto propriedades do Cima Corgo estavam devastadas pela filoxera, ela apostava em uma região mais quente, seca e pouco valorizada naquele momento.

Mais uma vez, Ferreirinha estava pensando décadas à frente.

E por que Ferreirinha?

Há uma curiosidade que ajuda a entender a força de seu nome.

Ferreirinha não era originalmente uma marca criada para vender vinho.

Era um apelido carinhoso.

A população local passou a chamar Antónia Adelaide Ferreira dessa maneira, uma forma afetuosa de distingui-la e, ao mesmo tempo, demonstrar a admiração que despertava.

O diminutivo carregava uma enorme reverência.

Com o passar dos anos, entretanto, aquele apelido ultrapassou a pessoa e tornou-se patrimônio de uma das mais importantes casas vinícolas portuguesas.

A atual Casa Ferreirinha está historicamente ligada à antiga A. A. Ferreira, cuja trajetória documentada remonta ao século XVIII e que ganhou dimensão e prestígio extraordinários sob a liderança de Dona Antónia. Hoje, a Casa Ferreirinha é uma das grandes referências dos vinhos do Douro.

Ou seja: quando alguém abre uma garrafa da Casa Ferreirinha, está diante de um nome que nasceu, literalmente, como uma demonstração de carinho a uma mulher.

O vinho que transformou Ferreirinha em um ícone

Mas existe uma curiosidade histórica que precisa ser esclarecida.

Embora o nome Casa Ferreirinha esteja indissociavelmente ligado a Dona Antónia, o seu vinho mais famoso, o Barca Velha, não foi criado por ela.

Ele nasceu décadas depois de sua morte.

O responsável foi Fernando Nicolau de Almeida, enólogo que ingressou na Ferreira em 1929 e alimentava, desde a década de 1940, um sonho considerado quase impossível para a época: produzir no Douro um grande vinho tinto não fortificado, com potencial de envelhecimento comparável ao dos grandes vinhos de guarda.

O sonho tornou-se realidade em 1952.

Nascia o Barca Velha.

A primeira safra somente seria comercializada em 1960, mas o vinho rapidamente se transformaria no grande símbolo dos tintos portugueses. A própria Casa Ferreirinha o considera seu vinho de maior prestígio e um verdadeiro ícone dos vinhos do Douro.

Existe, portanto, uma bonita continuidade histórica:

Dona Antónia construiu as bases. Fernando Nicolau de Almeida levou adiante a ideia de que o Douro poderia produzir grandes vinhos tranquilos.

E o Barca Velha tornou-se uma das maiores expressões dessa filosofia.

Uma homenagem que voltou ao rótulo

E a Casa Ferreirinha não deixou que o nome da sua grande matriarca se perdesse na história.

Em 2011, quando se comemoraram os 200 anos do nascimento de Dona Antónia, foi lançado o vinho Antónia Adelaide Ferreira, da safra 2008, como homenagem à mulher que ajudou a construir a identidade vitivinícola do Douro.

É uma bela coincidência.

A mulher que um dia enfrentou a morte das vinhas voltou, mais de um século depois, a aparecer no rótulo de um vinho.

A última lição de Ferreirinha

Dona Antónia morreu em 26 de março de 1896.

Deixou dezenas de propriedades, uma fortuna considerável e uma reputação que já ultrapassava as fronteiras do Douro.

Mas seu maior patrimônio talvez não possa ser medido em hectares.

Está nas ideias.

Na coragem de uma mulher que assumiu negócios em uma sociedade dominada por homens.

Na empresária que comprou propriedades em dificuldades.

Na viticultora que procurou respostas no estrangeiro quando a filoxera ameaçou destruir tudo.

Na proprietária que preferiu construir um muro a dispensar trabalhadores.

Na mulher que diversificou culturas para atravessar a crise.

E na visionária que, já aos 76 anos, decidiu plantar vinhas onde quase ninguém acreditava que pudesse existir um grande futuro.

Talvez por isso a história de Ferreirinha seja tão apropriada para uma coluna sobre vinho.

Porque o vinho ensina que tempo, paciência e resistência fazem parte da grandeza.

Uma videira pode morrer.

Uma colheita pode ser perdida.

Uma fortuna pode desaparecer.

Mas alguém precisa acreditar que a próxima safra será possível.

Dona Antónia Adelaide Ferreira acreditou.

E foi justamente quando o Douro parecia estar morrendo que ela decidiu plantar o futuro.

Hoje, quando o sol do fim da tarde se derrama sobre os socalcos do Douro e as videiras parecem desenhar linhas intermináveis pelas encostas, talvez seja possível imaginar a silhueta de uma mulher caminhando entre elas.

Não como uma personagem distante de um século já desaparecido.

Mas como alguém que ainda parece estar ali.

Entre a pedra e a videira.

Entre o risco e a esperança.

Entre a terra e o vinho.

Dona Ferreirinha.

A mulher que não deixou o Douro morrer.

Até a próxima semana, mas lembre-se: se beber não dirija.

“A opinião deste colunista não reflete, necessariamente, a opinião da RedeTV! Espírito Santo.”

Publicitário; cursou Artes Plásticas na UFES; Enófilo, escreve sobre vinhos desde2010. Já escreveu sobre o tema em vários veículos de comunicação: revista SIM; jornais Em Pauta, O Ponto; Século Diário (jornal online); MovNews (jornal online). Assessor de Comunicação da PMV de 1994 a 2002; Assessor Técnico da Imprensa Oficial do ES de 2003 a 2019.

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