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⁠Uvas & Vinhos

Os alquimistas de Baco e Dionísio: um brinde aos enólogos

Entre a ciência, a natureza e a arte, o enólogo é o profissional que conduz a transformação dos frutos da videira em uma das bebidas mais fascinantes da história da humanidade.
Duas taças de vinho tinto em brinde em um vinhedo ao pôr do sol

22 de outubro: um brinde aos mestres que transformam uvas em poesia

Existe uma magia silenciosa que acontece muito antes de uma garrafa de vinho chegar à mesa. Ela começa na terra, percorre as raízes da videira, atravessa as estações do ano, amadurece sob o sol e culmina na colheita de pequenos frutos que carregam em si a promessa de grandes experiências. Entre a natureza e a taça, porém, existe um profissional cuja dedicação é indispensável para que essa transformação aconteça: o enólogo.

Neste 22 de outubro, quando celebramos o Dia do Enólogo, a coluna Uvas & Vinhos presta uma homenagem a esses profissionais que unem conhecimento científico, sensibilidade artística e respeito à natureza para nos entregar uma bebida que atravessa séculos encantando gerações.

Se, na mitologia grega, Dionísio era o deus do vinho e das celebrações, enquanto Baco representava sua correspondente divindade na tradição romana, podemos dizer, em uma licença poética, que o enólogo é um dos grandes responsáveis por manter viva essa herança divina. Afinal, são suas mãos, guiadas pela ciência e pela experiência, que ajudam a transformar a generosidade da videira em uma experiência capaz de despertar os sentidos e reunir pessoas ao redor de uma mesa.

Mas, ao contrário dos deuses, o enólogo não conta com poderes sobrenaturais. Seu verdadeiro talento está no conhecimento, na observação, na paciência e na capacidade de compreender os delicados movimentos da natureza.

Tudo começa muito antes da primeira taça

A história de um grande vinho não começa na adega, muito menos na garrafa. Começa no vinhedo.

É ali que o trabalho de acompanhamento da videira, a escolha das variedades, a compreensão do solo e do clima e o planejamento da colheita ajudam a determinar o potencial do vinho que virá.

Embora a implantação do vinhedo e o manejo das videiras sejam atribuições que envolvem especialmente o viticultor e outros profissionais da área agrícola, o enólogo pode participar dessas decisões desde as etapas iniciais, trabalhando em conjunto com a equipe de campo para que as uvas cheguem à adega nas melhores condições possíveis.

A escolha do momento da colheita, por exemplo, é uma das decisões mais importantes dessa jornada. Antecipá-la ou adiá-la pode alterar significativamente o equilíbrio entre açúcar, acidez, maturação dos taninos e desenvolvimento dos aromas.

É preciso compreender o comportamento de cada variedade, interpretar as condições climáticas e avaliar a maturação dos frutos.

Não existe uma fórmula universal. Cada safra apresenta seus desafios, cada região possui suas particularidades e cada vinhedo conta uma história própria.

É nesse cenário que o conhecimento técnico se encontra com a sensibilidade do profissional.

O enólogo sabe que uma uva de qualidade representa o início de um grande vinho, mas também compreende que a excelência depende de inúmeras decisões tomadas ao longo do caminho.

A alquimia que transforma a uva em vinho

Quando as uvas chegam à adega, começa uma nova etapa dessa fascinante jornada.

A fermentação alcoólica, processo em que as leveduras transformam os açúcares do mosto em álcool e dióxido de carbono, é um dos momentos fundamentais da elaboração do vinho.

Mas não basta esperar que a natureza faça seu trabalho. É necessário acompanhar temperaturas, avaliar a evolução da fermentação, observar aromas, controlar processos e tomar decisões que influenciarão diretamente o resultado final.

Nos vinhos tintos, a extração de cor, aromas e taninos exige cuidados específicos. Nos brancos, a preservação do frescor e da expressão aromática pode orientar diferentes escolhas de elaboração. Nos espumantes, a produção das borbulhas envolve processos próprios, que exigem precisão e domínio técnico.

Há vinhos que amadurecem em tanques de aço inoxidável para preservar o frescor e a expressão da fruta. Outros encontram nas barricas de carvalho condições para desenvolver maior complexidade, textura e novos matizes aromáticos.

Cada escolha tem consequências.

O enólogo precisa compreender quando intervir e quando permitir que o vinho siga seu próprio caminho. Precisa saber que a técnica é indispensável, mas que a intervenção excessiva também pode comprometer a identidade da uva, da safra e do lugar de origem.

É uma combinação de ciência e sensibilidade que faz da enologia uma profissão tão singular.

E, quando finalmente chega o momento de provar o resultado, aquela pequena uva colhida meses antes já se transformou em algo inteiramente novo: uma bebida capaz de expressar o trabalho humano e as características da natureza que lhe deu origem.

Paciência: o ingrediente que não aparece no rótulo

Existe uma palavra que acompanha o trabalho do enólogo do início ao fim: paciência.

A natureza possui seu próprio relógio, e o vinho não conhece atalhos universais para alcançar a complexidade. Alguns exemplares são elaborados para serem apreciados jovens, revelando frescor e vivacidade. Outros precisam de meses ou anos de amadurecimento para encontrar o equilíbrio desejado.

Durante esse período, o profissional acompanha a evolução do vinho, realiza análises, avalia sua estabilidade e decide quando ele estará pronto para o engarrafamento ou para continuar amadurecendo.

O tempo, entretanto, não trabalha sozinho. É a combinação entre a qualidade das uvas, as condições de elaboração, o armazenamento adequado e as características de cada vinho que determina seu potencial de evolução.

Por isso, cada garrafa representa muito mais do que seu conteúdo líquido. Ela carrega decisões, experiências, conhecimento acumulado e o trabalho de uma equipe inteira.

Quando erguemos uma taça, raramente pensamos em todas as etapas que tornaram aquele momento possível. Enxergamos a cor, sentimos os aromas, percebemos os sabores e desfrutamos da companhia.

Mas, por trás de cada gole, existe uma história que merece ser reconhecida.

Entre Baco, Dionísio e a ciência do vinho

Desde a Antiguidade, o vinho ocupa um lugar especial no imaginário humano.

Na mitologia grega, Dionísio simbolizava o vinho, a celebração e a força transformadora da natureza. Na tradição romana, Baco assumiu papel semelhante, tornando-se associado às festividades e aos prazeres da vida.

Essas divindades representam a dimensão cultural e simbólica de uma bebida que acompanha a humanidade há milênios.

Hoje, porém, sabemos que a transformação da uva em vinho depende de processos biológicos, químicos e físicos que podem ser estudados, controlados e aperfeiçoados.

O enólogo é justamente um dos profissionais que fazem essa ponte entre a tradição e a ciência.

Ele conhece os processos de fermentação, compreende a composição química do vinho, acompanha sua evolução e utiliza ferramentas tecnológicas para tomar decisões cada vez mais precisas.

Ao mesmo tempo, sabe que os números de uma análise laboratorial não contam toda a história.

Um vinho também carrega identidade, origem e personalidade. Pode expressar o clima de determinada safra, as características de um solo, as particularidades de uma variedade e a filosofia de quem o elaborou.

É nesse encontro entre conhecimento e expressão que a enologia revela sua dimensão artística.

Talvez por isso seja tão tentador imaginar Baco e Dionísio brindando aos profissionais que, com tanta dedicação, continuam a perpetuar a cultura do vinho. Os deuses inspiraram os mitos; os enólogos, com o apoio da natureza e da ciência, ajudam a transformar essa inspiração em realidade.

Um brinde a quem faz o vinho acontecer

O Dia do Enólogo é uma oportunidade para reconhecer uma profissão que exige estudo constante, responsabilidade, sensibilidade e dedicação.

É também uma ocasião para homenagear os profissionais que enfrentam as incertezas climáticas, acompanham cada etapa da produção, experimentam novas técnicas, preservam tradições e procuram, safra após safra, alcançar a melhor expressão possível de cada vinho.

A eles se juntam os viticultores, os trabalhadores do campo, os técnicos de adega e tantos outros profissionais cuja contribuição nem sempre aparece no rótulo, mas está presente em cada garrafa.

Da próxima vez que abrir um vinho, observe sua cor, aproxime a taça do nariz e permita que os aromas se revelem. Prove lentamente e procure perceber o equilíbrio entre acidez, estrutura, textura e persistência.

Depois, lembre-se de que aquela experiência começou muito antes de o vinho chegar às suas mãos.

Começou na videira, passou pelo trabalho de quem cuidou das uvas e ganhou forma pelas decisões de quem conduziu sua elaboração.

Neste 22 de outubro, a coluna Uvas & Vinhos ergue sua taça em homenagem aos enólogos, esses intérpretes da natureza que unem ciência e sensibilidade para transformar o fruto da videira em uma experiência capaz de emocionar.

Se Baco e Dionísio são os personagens divinos que povoam a mitologia do vinho, os enólogos são os profissionais de carne e osso que, com conhecimento, dedicação e paciência, ajudam a manter viva essa antiga paixão da humanidade.

E fica aqui o nosso brinde: que nunca lhes faltem boas uvas, safras promissoras, inspiração para inovar e sabedoria para respeitar o tempo de cada vinho.

Porque, entre a primeira videira plantada e a última gota servida, existe muito mais do que uma bebida: existe a arte de transformar a natureza em emoção.

Feliz Dia do Enólogo

“A opinião deste colunista não reflete, necessariamente, a opinião da RedeTV! Espírito Santo.”

Publicitário; cursou Artes Plásticas na UFES; Enófilo, escreve sobre vinhos desde2010. Já escreveu sobre o tema em vários veículos de comunicação: revista SIM; jornais Em Pauta, O Ponto; Século Diário (jornal online); MovNews (jornal online). Assessor de Comunicação da PMV de 1994 a 2002; Assessor Técnico da Imprensa Oficial do ES de 2003 a 2019.

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