
Uma receita que atravessa gerações e reúne sabores, técnicas e tradições é celebrada nesta quarta-feira (30) com o Dia da Moqueca Capixaba. Considerado um dos principais símbolos culturais do Espírito Santo, o prato está ligado à história da pesca, dos manguezais, das comunidades tradicionais e da produção artesanal das panelas de barro.
A trajetória da moqueca reúne referências que remontam ao período colonial. Registros do século XVI já descreviam o uso indígena do moquém, técnica de preparo de alimentos diretamente sobre brasas. Décadas depois, documentos passaram a registrar o preparo de peixes utilizando essa forma de cocção.
Embora a origem exata da palavra “moqueca” seja motivo de discussão entre pesquisadores, os registros históricos apontam para a influência de técnicas indígenas na formação da culinária que, ao longo dos séculos, foi transformada e incorporada à cultura capixaba.
A tradição da panela de barro
No Espírito Santo, a história da moqueca está diretamente ligada à panela de barro produzida pelas paneleiras de Goiabeiras, em Vitória. A fabricação artesanal reúne conhecimentos transmitidos entre gerações e mantém características associadas a tradições indígenas.
Uma das primeiras referências documentais às panelas produzidas na região foi registrada em 1815 pelo naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, que descreveu a fabricação de peças de terracota em Goiabeiras.
A produção tradicional utiliza argila retirada do Vale do Mulembá. Depois de moldadas manualmente, as panelas são secas, alisadas e queimadas em fogueiras a céu aberto. A coloração escura característica é obtida com a aplicação de tanino extraído da casca do mangue-vermelho.
A importância desse conhecimento foi reconhecida nacionalmente em 2002, quando o Ofício das Paneleiras de Goiabeiras foi registrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural do Brasil. O registro foi revalidado em 2021.
Em 2011, as panelas de barro produzidas em Goiabeiras também receberam do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) a Indicação de Procedência “Goiabeiras”, reconhecendo a relação entre o produto, sua origem geográfica e os saberes tradicionais envolvidos na fabricação.
“Moqueca é capixaba”
O Dia da Moqueca Capixaba foi incluído no calendário oficial de Vitória em 2012, por meio da Lei Municipal nº 8.213/2012. A escolha de 30 de setembro está relacionada ao aniversário do jornalista e escritor capixaba José Carlos Monjardim, conhecido como Cacau Monjardim.
Ele ficou conhecido pela frase “Moqueca é capixaba, o resto é peixada”, que ajudou a popularizar o prato como símbolo da identidade gastronômica do Espírito Santo.
No ano seguinte, em 2013, a data também passou a integrar o calendário estadual.
Uma tradição ligada ao território
A história da moqueca também está relacionada à cadeia produtiva formada pela pesca, pelo manguezal, pelo trabalho das paneleiras e pela culinária tradicional.
Em Vitória, essa relação pode ser observada especialmente em Goiabeiras, onde a produção artesanal das panelas permanece ligada ao território e aos conhecimentos transmitidos entre famílias.
Por isso, a moqueca capixaba representa mais do que uma receita. O prato reúne patrimônio, território e diferentes formas de trabalho e conhecimento preservadas ao longo das gerações e que fazem parte da identidade cultural do Espírito Santo.





