
Imagens geradas a partir de dados de satélites meteorológicos revelam a expansão contínua da área atingida por neve intensa na Europa, avançando do noroeste em direção ao centro e ao sudeste do continente.
O fenômeno não decorre de uma simples onda de frio, mas da atuação da tempestade Goretti, que passou por um processo de ciclogênese explosiva — conhecido como weather bomb. Nesse processo, a pressão atmosférica no núcleo do sistema caiu mais de 30 milibares em 24 horas, intensificando os ventos e reorganizando a circulação de ar sobre a Europa.
De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), o episódio está associado a um sistema atmosférico de grande escala que mantém uma massa de ar polar represada sobre a região, configuração conhecida como bloqueio atmosférico. Embora esse padrão seja típico de alguns invernos europeus, a abrangência e a persistência observadas neste caso são consideradas incomuns.
Na prática, a tempestade funcionou como o gatilho dinâmico da nevasca continental. Ao se intensificar rapidamente, Goretti passou a forçar o encontro de ar quente e úmido com a massa de ar polar bloqueada, criando condições favoráveis à formação e à manutenção da neve em larga escala. Essa configuração permitiu o avanço de ar extremamente frio para latitudes mais baixas, resultando em um evento extenso e duradouro, diferente das ondas de frio mais curtas, que tendem a se dissipar em poucos dias.
A dimensão espacial e a duração do fenômeno explicam os impactos simultâneos registrados em países como França, Reino Unido, Países Baixos, Espanha, Irlanda e regiões dos Bálcãs. Especialistas da OMM destacam que episódios como o da tempestade Goretti refletem um contexto de maior variabilidade climática no Hemisfério Norte, com invernos marcados por alternância entre períodos anormalmente quentes e incursões súbitas de ar polar.
Diante do cenário, a OMM emitiu alertas oficiais para França, Países Baixos, Dinamarca e Reino Unido, devido ao risco elevado de neve intensa, formação de gelo e ventos fortes, com potencial impacto sobre a população e os sistemas de transporte.
Os efeitos vão além de nevascas pontuais. A persistência do núcleo frio tem provocado acúmulos expressivos de neve fora das áreas tradicionalmente afetadas. Nos Bálcãs, por exemplo, Sarajevo registrou cerca de 40 centímetros de neve, volume suficiente para derrubar árvores e agravar o número de acidentes fatais.
Apesar das imagens mais divulgadas destacarem paisagens urbanas cobertas de branco, os impactos ambientais são mais amplos. O peso da neve já causou quedas de árvores, como no caso registrado em Sarajevo, onde uma mulher morreu após ser atingida por um tronco coberto de gelo. Em áreas rurais do Reino Unido, campos cobertos de neve expõem rebanhos ao frio extremo, aumentando o risco de mortalidade animal e comprometendo pastagens em pleno inverno.
No conjunto, os dados de satélite indicam que a tempestade Goretti representa um evento climático de grande escala, com efeitos ambientais distribuídos por grande parte do continente europeu, e não apenas mais um episódio isolado de frio intenso.

