“A política é um jogo psicológico, a canção do delírio e um pentecoste de blefes”
O título da nossa breve análise é uma pergunta retórica, na qual a resposta é um grande enigma, afinal, quem não conhece o ex-governador Paulo Hartung? Contudo, existe uma diferença entre conhecer o ex-governador e conhecer sua trajetória política, uma estrada com vários caminhos.
Obviamente, Paulo Hartung é uma figura emblemática na política do Espírito Santo que, há algum tempo, vem tentando emplacar nacionalmente, um salto ousado que mostra o seu tamanho. Por isso, todo pleito eleitoral, seu nome aparece naturalmente, uma aderência política construída por três mandatos frente ao Palácio Anchieta, etc.
No entanto, existe um hiato de quase uma década sem mandato, um mergulho profundo e perigoso para quem realmente pretende disputar as eleições majoritárias do próximo ano (2026). Não podemos negar que, nas últimas disputas, a política mudou muito e tende a evoluir dentro do campo ideológico, exigindo dos seus protagonistas posições claras de temas que estão na mesa do eleitor, tanto de direita quanto de esquerda. Lembrando que no segundo turno da última eleição presidencial (2022), Paulo Hartung usou a prerrogativa do silêncio e não declarou quem era seu candidato, Lula ou Bolsonaro, uma neutralidade que custou caro para muitos candidatos. Ou seja, a decisão de não decidir colocou muita gente no muro da conveniência política, uma posição cada vez mais rejeitada pelo eleitor.
Mas, afinal de contas, qual Paulo Hartung disputará as eleições de 2026? Primeiro, precisamos acompanhar as aparições desse “fantasma” que ainda assombra o Palácio Anchieta. O ex-governador não pode fazer uma movimentação que logo mexe com o tabuleiro e com o imaginário do mercado político, seja por estratégia ou por pura provocação. Segundo, em qual projeto cabe um político com o currículo de Paulo Hartung, com histórico de precursor da reconstrução do Estado, misturado com os desgastes sofridos durante seu governo, como a fatídica greve da Polícia Militar e a questionável agenda de entregas, em nome do chamado equilíbrio fiscal? Será que o Paulo Hartung de 2026 continuará flertando com boa parte da militância do Partido dos Trabalhadores (PT) ou aquele Hartung não existe mais? Será o Paulo Hartung convertido à agenda da direita, logo ele, que foi um crítico daquilo que ele chamou de excessos do ex-presidente Bolsonaro, endossando o nome de Simone Tebet (MDB) para presidente? Quem é e quem será o Paulo Hartung versão PSD de Gilberto Kassab, o partido que galanteia com Lula e Bolsonaro?
Dividir o Reino para Enfraquecer o Rei
A última semana foi movimentada, com direito a várias simulações da imprensa, como, por exemplo: a divisão do governo Casagrande, devido às movimentações do prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo, com o PSD, partido ao qual Paulo Hartung vinha namorando e “casou”.
Parece que a intenção da oposição é calcificar uma suposta divisão do governo para enfraquecer Renato Casagrande e pressioná-lo a não deixar o cargo para disputar uma das duas vagas ao Senado Federal. Entretanto, o governador desfez publicamente essa “estratégia” e frustrou as conspirações do mercado, colocando na mesa do seu grupo, um recado direto e claro à oposição.
Com isso, Casagrande mostra que está atento às possíveis fissuras do processo eleitoral e que, na hora certa, vai calcular todos os riscos, sem repetir as precipitações das últimas disputas eleitorais, uma tacada de mestre para quem vem distribuindo alguns “nós táticos” nas projeções requentadas.
Enfim, enquanto o Paulo Hartung de 2026 não se revela e tenta fugir da previsibilidade, o governo Renato Casagrande se mantém no absoluto observatório, uma posição privilegiada para seus aliados e desconfortável para quem deseja escalar o temido “Everest de 2026”.
Qual Paulo Hartung disputará as eleições de 2026? A resposta está na própria pergunta, uma referência ao hiato de oito anos sem mandato, de aparições confusas, mutações políticas e de indefinições que não combinam mais com o perfil crítico e exigente do eleitorado capixaba, principalmente a camada mais jovem que não costuma perdoar quem não assume sua personalidade partidária.





