
Mesmo com o ano já em andamento e a entrada do segundo mês no calendário, ainda há tempo (e talvez este seja o momento mais lúcido e ideal) para pensar com calma no futuro. Longe da euforia típica do início de janeiro, planejar agora as metas para 2026 pode ser uma escolha mais consciente e realista. É justamente após o entusiasmo inicial que muitas pessoas percebem o quanto é difícil sustentar objetivos ao longo do tempo, o que reforça a importância de um planejamento que considere não apenas desejos, mas também limites, emoções e estratégias práticas.
Estudos mostram que aproximadamente somente 8% a 10% das pessoas conseguem cumprir suas resoluções anuais ao longo do tempo, e muitas abandonam os objetivos já nos primeiros meses do ano. Quando analisadas por gênero, as diferenças podem aparecer de maneiras diversas. Em algumas análises, observou-se que as mulheres tendem a relatar taxas maiores de abandono das metas estabelecidas e enfrentam mais desafios em manter seus objetivos ao longo do tempo, possivelmente por acumular múltiplas demandas de vida pessoal e profissional, embora em alguns contextos elas estabeleçam mais metas de saúde do que os homens.
Para a psicanalista e neurocientista Joseana Sousa, especialista em comportamento humano, essa discrepância entre intenções e resultados está diretamente relacionada à forma como a mente humana processa expectativas, frustrações e planejamento. “Quando traçamos metas apenas pela motivação do início do ano, sem um plano concreto ou um entendimento interno do que realmente queremos e precisamos, é comum que a sensação inicial dê lugar à frustração ou ao desânimo”, explica Joseana. Segundo a especialista, isso pode gerar sentimento de culpa e autocrítica, que são barreiras emocionais tão importantes quanto os desafios práticos de cada objetivo.
Como se organizar?
Joseana sugere começar o planejamento de metas de forma reflexiva, conectando objetivos a valores pessoais mais profundos. “Pergunte-se: por que essa meta é importante? O que ela significa para a minha vida? Como posso transformar esse desejo em hábitos concretos e sustentáveis?”, recomenda. Metas específicas e pequenas ações, a exemplo de caminhar 30 minutos, quatro vezes por semana ou ler um livro por mês, ajudam a criar um senso de rotina e realização, ao invés de sobrecarga emocional.
A especialista também destaca que equilibrar expectativas com autocompaixão é essencial: “O cérebro reage fortemente à frustração. Quando nos impomos metas irreais ou nos cobramos demais, ativamos mecanismos de estresse que nos afastam dos resultados desejados”, afirma. Ela ressalta que o cuidado com a própria mente – incluindo pausas regulares, apoio psicológico, atividade física, sono adequado e momentos de descanso – fortalece não apenas a disciplina, mas também a resiliência emocional necessária para persistir.
A psicanalista recomenda ainda que metas sejam revistas e adaptadas ao longo do ano. “O planejamento não deve ser rígido, mas sim um processo dinâmico de autoconhecimento e ajuste contínuo, pois planejar não significa fazer uma lista interminável de desejos, mas construir um caminho de ações sustentáveis e gradativa para que sua mente consiga se habituar. Seja gentil consigo mesmo”, conclui.





