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⁠Uvas & Vinhos

Um sonho português

Crédito: Reprodução / Pixabay

Falar de grandes vinhos é, inevitavelmente, falar de sonhos — e poucos sonhos foram tão ousados e duradouros quanto o que deu origem ao Barca-Velha. Nascido nas encostas abruptas do Douro, este vinho não é apenas uma referência em Portugal; é um símbolo de excelência que atravessou fronteiras e conquistou o mundo.

A história começa com a Casa Ferreirinha, uma casa profundamente ligada à tradição e à identidade do vinho da região do Douro. Foi sob esta chancela que surgiu a ambição de criar algo inédito: um vinho tinto português capaz de envelhecer com elegância e competir com os grandes clássicos internacionais.

O grande responsável por transformar esse sonho em realidade foi Fernando Nicolau de Almeida. Visionário e determinado, Nicolau de Almeida acreditava que o Douro, até então mais conhecido pelos vinhos do Porto, tinha potencial para produzir vinhos de mesa de qualidade extraordinária. A sua ideia nasceu da observação, do estudo e de uma inquietação criativa: e se fosse possível domar o calor intenso da região e criar um vinho equilibrado, fino e longevo?

Para concretizar essa visão, ele percorreu vinhas, estudou solos e, sobretudo, inovou. Numa época em que a tecnologia era limitada, introduziu práticas pioneiras, como o transporte de uvas em condições controladas para evitar fermentações precoces causadas pelo calor. Esse cuidado extremo foi essencial para preservar a frescura e a elegância do vinho — características que viriam a definir o Barca-Velha.

A primeira colheita surgiu em 1952, um marco histórico que viria a redefinir o panorama do vinho português. No entanto, fiel ao seu rigor, Nicolau de Almeida decidiu que o vinho só seria lançado quando atingisse um nível excepcional. Assim, nem todos os anos dão origem a um Barca-Velha — apenas as colheitas consideradas verdadeiramente extraordinárias recebem esse título. Nos restantes anos, o vinho é lançado como Reserva Especial.

Décadas depois, o legado continua vivo. Hoje, a responsabilidade de preservar e reinterpretar esse ícone recai sobre Luís Sottomayor, atual enólogo da Casa Ferreirinha. Com profundo respeito pela herança de Nicolau de Almeida, Sottomayor mantém o compromisso com a excelência, aliando tradição e conhecimento contemporâneo.

Quanto ao presente, o Barca-Velha permanece fiel à sua natureza rara: não é produzido todos os anos, e cada lançamento é um acontecimento. A atual safra do icônico vinho Barca-Velha no mercado é a 2015, lançada oficialmente em junho de 2024. Esta é a 21ª edição deste vinho da Casa Ferreirinha, que só é produzido em anos excepcionais, após passar por cerca de nove anos de guarda antes de ser comercializado — reforçando a ideia de que este vinho vive no tempo longo, onde a pressa não tem lugar.

Assim, o Barca-Velha continua a ser mais do que um vinho. É um testemunho de visão, paciência e paixão — um verdadeiro sonho português engarrafado, que atravessa gerações e mantém intacta a sua aura de mito.

Em se tratando de um vinho de guarda, longevo, sugerimos abrir a garrafa entre 2 a 3 horas antes de servir à temperatura de 17 graus.

Beba com moderação. Até a próxima semana.

“A opinião deste colunista não reflete, necessariamente, a opinião da RedeTV! Espírito Santo.”

Publicitário; cursou Artes Plásticas na UFES; Enófilo, escreve sobre vinhos desde2010. Já escreveu sobre o tema em vários veículos de comunicação: revista SIM; jornais Em Pauta, O Ponto; Século Diário (jornal online); MovNews (jornal online). Assessor de Comunicação da PMV de 1994 a 2002; Assessor Técnico da Imprensa Oficial do ES de 2003 a 2019.

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