Compartilhe

Estética Mente Saudável

O maior perigo para o seu cabelo pode não estar no shampoo, mas na desinformação

Vídeos viralizam condenando ingredientes e prometendo fórmulas milagrosas. Mas a ciência mostra que escolher um shampoo exige contexto, informação e atenção às necessidades individuais.

Se eu lhe perguntasse agora qual shampoo você usa, provavelmente você responderia com o nome da marca. Mas, se eu perguntasse por que escolheu esse produto, talvez a resposta fosse outra: “Porque disseram na internet que ele não tem sulfato”, “Porque um influenciador afirmou que determinado ingrediente causa queda de cabelo” ou “Porque vi um vídeo dizendo que esse é o único shampoo seguro”.

É exatamente aí que começa o problema.

Nunca se falou tanto sobre saúde capilar. Ao mesmo tempo, informações incompletas sobre shampoos circulam com grande velocidade. Em poucos segundos, um vídeo pode transformar um ingrediente em vilão absoluto e levar consumidores a abandonar produtos sem avaliar a formulação completa, o modo de uso, a condição do couro cabeludo ou a qualidade das evidências apresentadas.

Como profissional da área capilar, observo pacientes que atribuem ao shampoo a queda dos cabelos, a oleosidade, a coceira ou a descamação. No entanto, esses sinais podem estar associados a diferentes fatores, como predisposição genética, alterações hormonais, doenças do couro cabeludo, uso de medicamentos, deficiências nutricionais específicas, inflamações e estresse. A relação entre shampoo e sintomas não deve ser presumida sem uma avaliação adequada. Em alguns casos, o produto pode irritar ou sensibilizar a pele; em outros, ele apenas coincide com o início de uma alteração cuja causa é diferente.

O shampoo é, em geral, um cosmético destinado à limpeza do couro cabeludo e dos fios. Ele ajuda a remover oleosidade, suor, resíduos de produtos e partículas ambientais. Sua formulação pode conter tensoativos, agentes condicionantes, reguladores de pH, conservantes, fragrâncias e outros componentes. A tolerância e o desempenho dependem da fórmula completa, da frequência de uso, da quantidade aplicada, do tempo de contato e das características individuais do usuário.

Por isso, é mais seguro evitar classificações absolutas. Um ingrediente não é necessariamente “bom” ou “ruim” em qualquer situação. A avaliação deve considerar sua função, concentração, combinação com outros componentes, forma de uso e histórico de segurança. Também é importante diferenciar irritação, que pode ocorrer por efeito direto na pele, de alergia de contato, que envolve uma resposta imunológica e requer investigação específica.

A Academia Brasileira de Tricologia apresenta a Tricologia como uma área voltada ao estudo dos cabelos e do couro cabeludo. Para sustentar a afirmação de que a instituição recomenda determinada abordagem sobre shampoos, ingredientes ou leitura da composição INCI, é necessário consultar a página oficial atualizada e verificar o conteúdo exato publicado pela entidade. A referência anteriormente utilizada deve ser confirmada, pois páginas podem mudar, ser removidas ou não abordar todos os pontos mencionados. (Academia Brasileira de Tricologia)

Os sulfatos ilustram bem essa discussão. Eles são tensoativos com capacidade de limpeza e podem ser úteis em diferentes formulações. Entretanto, a segurança e a tolerabilidade não dependem apenas do nome do ingrediente. A concentração, o sistema de tensoativos, o pH e o tempo de contato influenciam a experiência de uso. Algumas pessoas podem preferir fórmulas menos detergentes por apresentarem sensibilidade, ressecamento ou danos na fibra capilar, mas isso não permite concluir que todos os sulfatos sejam inadequados para toda a população. Para essa afirmação, é recomendável citar estudos específicos de dermatologia ou ciência cosmética, além de documentos regulatórios atualizados.

O mesmo cuidado vale para silicones, conservantes e fragrâncias. Silicones podem contribuir para a lubrificação, a redução do atrito e a aparência condicionada dos fios, embora não sejam indispensáveis em todas as formulações. Conservantes são utilizados para controlar a contaminação microbiológica, mas alguns componentes podem causar sensibilização em pessoas predispostas. Fragrâncias também podem provocar irritação ou alergia em indivíduos suscetíveis. Essas possibilidades não significam que os ingredientes sejam perigosos para todos. Para sustentar afirmações sobre frequência de alergia, limites de uso ou ingredientes específicos, são necessárias fontes técnicas e atualizadas, como pareceres de autoridades regulatórias e revisões científicas.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária estabelece regras para a regularização, a rotulagem e a segurança dos cosméticos. A nomenclatura INCI é utilizada para padronizar a identificação dos ingredientes, mas a presença de um nome no rótulo não informa, sozinha, a concentração, a função exata na fórmula ou o risco individual. Também é importante evitar dizer que todos os produtos são automaticamente seguros apenas porque estão disponíveis no mercado. A regularização envolve requisitos e responsabilidades sanitárias, mas não elimina a possibilidade de eventos adversos, uso inadequado ou reações individuais. Para afirmações sobre categorias de produtos, limites de ingredientes e procedimentos de regularização, devem ser consultadas as normas vigentes da Anvisa, especialmente as páginas oficiais atualizadas sobre cosméticos e rotulagem. (Anvisa)

Outro equívoco frequente é acreditar que trocar de shampoo resolverá qualquer doença capilar. Dermatite seborreica, psoríase, alopecias e outras alterações do couro cabeludo exigem avaliação clínica. Alguns shampoos podem fazer parte do tratamento de determinadas condições, mas isso depende do diagnóstico, do ativo utilizado e da orientação de um dermatologista ou de outro profissional habilitado dentro de sua área de atuação. Um cosmético de limpeza não deve ser apresentado como substituto de tratamento médico.

Também é preciso ter cautela com a afirmação de que as redes sociais sempre divulgam opiniões mais rapidamente do que a ciência. Embora conteúdos virais possam alcançar muitas pessoas em pouco tempo, a comparação é retórica e não substitui dados mensuráveis. O ponto central é outro: conteúdos populares nem sempre apresentam referências, contexto, limitações ou distinção entre evidência experimental, experiência pessoal e opinião.

Meu convite é simples. Da próxima vez que alguém disser que determinado shampoo “destrói os cabelos” ou que outro é “milagroso”, pare antes de trocar toda a sua rotina. Verifique se a informação cita estudos ou documentos oficiais. Consulte a lista de ingredientes, observe como seu couro cabeludo reage e evite usar um produto que provoque ardor, vermelhidão, coceira persistente ou descamação. Se os sintomas continuarem, procure avaliação com dermatologista ou profissional qualificado.

Não escolha um shampoo apenas porque ele promete ser “natural”, “sem química” ou “livre de toxinas”. Todo produto é formado por substâncias químicas, e termos de marketing não substituem a análise da formulação nem a avaliação de segurança. Da mesma forma, não abandone um produto eficaz apenas porque um ingrediente foi condenado em um vídeo sem fonte verificável.

Cabelos saudáveis não dependem de uma fórmula universal. Dependem de cuidados compatíveis com o couro cabeludo, de expectativas realistas e de decisões baseadas em informações confiáveis.

A ciência sempre será o melhor cosmético para quem deseja cuidar da saúde dos cabelos com segurança e responsabilidade.

“A opinião deste colunista não reflete, necessariamente, a opinião da RedeTV! Espírito Santo.”

Estética Mente Saudável é um espaço onde ciência, beleza e bem-estar se encontram para orientar, inspirar e transformar. Nesta coluna, a estética é tratada como parte da saúde integral — uma ponte entre autocuidado, equilíbrio e qualidade de vida, sempre com informação confiável e responsabilidade profissional.

Colunas Recentes​