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Comece pelo G

Comece pelo G: uma história que começou pelo S

Pessoas abraçadas de costas diante de uma cidade ao amanhecer, com ícones de meio ambiente, pessoas, resultado e governança projetados acima

A inspiração para o nome desta coluna nasceu de uma provocação que ouvi no início da minha jornada no universo ESG. Curiosamente, ela dizia exatamente o contrário do que defendo aqui.

Era um workshop e uma das palestrantes era Priscila Gama, apresentada como estrategista de tecnologias sociais. Confesso que, naquele momento, a própria descrição profissional já havia despertado minha curiosidade. Tecnologias sociais? O que exatamente significava aquilo?

A apresentação começou com um slide que trazia apenas uma orientação: “Comece pelo S”.

O que veio depois foi uma quebra de paradigmas.

Naquela aula, compreendi algo que mudou minha maneira de enxergar as organizações: existe uma potência extraordinária de transformação nas pessoas. E investir nelas não é apenas uma questão de responsabilidade social. É reconhecer que o desenvolvimento de uma organização está diretamente relacionado à capacidade de desenvolver, envolver e valorizar quem faz parte dela.

Afinal, são pessoas que inovam, identificam oportunidades, resolvem problemas, constroem relações e dão vida às estratégias. E, por mais sofisticados que sejam os processos e as tecnologias, nenhum deles produz resultados sem a participação humana.

Mas, se essa experiência foi tão marcante, por que esta coluna se chama Comece pelo G?

Porque foi justamente quando tentei levar essa compreensão para a realidade da gestão que encontrei uma segunda descoberta.

Imagine apresentar à direção de uma empresa uma proposta de desenvolvimento de pessoas, um programa de inclusão ou uma iniciativa para promover um ambiente de trabalho mais saudável e colaborativo.

A ideia pode ser excelente. Os benefícios podem parecer evidentes. A intenção pode ser a melhor possível.

Mas, em algum momento, surgirão perguntas inevitáveis:

Como vamos executar? Quem será responsável? Quais recursos serão necessários? Como envolver as lideranças? Como vamos acompanhar os resultados? E, principalmente, como garantir que essa iniciativa não desapareça na próxima mudança de gestão?

Essas perguntas não deveriam ser vistas como obstáculos. São justamente o que permite que uma boa intenção se transforme em uma mudança concreta.

E isso tem nome: governança.

Foi aí que comecei a compreender que valorizar as pessoas exige mais do que reconhecer sua importância em discursos institucionais. Exige criar estruturas, definir responsabilidades, estabelecer compromissos e construir ambientes nos quais elas tenham condições reais de contribuir e se desenvolver.

Uma empresa pode anunciar investimentos importantes em desenvolvimento humano, mas, se suas lideranças não estiverem comprometidas, se não houver acompanhamento e se as decisões continuarem concentradas em práticas que desconsideram as equipes, dificilmente haverá transformação.

Pode defender a diversidade, mas, se os critérios de contratação e promoção não refletirem esse compromisso, a mensagem perde força.

Pode falar sobre escuta e participação, mas, se as pessoas não encontrarem espaço para questionar, sugerir e contribuir com as decisões, a cultura organizacional permanecerá a mesma.

É nesse ponto que a governança deixa de parecer um conceito distante, restrito a conselhos, diretorias e documentos corporativos.

Governança também é sobre como as pessoas são ouvidas, como as decisões são tomadas e como o poder é exercido dentro de uma organização.

E talvez essa seja uma das dimensões menos compreendidas quando falamos sobre o G do ESG.

Costumamos associar governança a regras, controles, políticas e estruturas de fiscalização. Tudo isso é importante. Mas existe uma dimensão profundamente humana por trás desses mecanismos.

São as regras que estabelecem critérios justos. São os processos que ajudam a impedir que decisões dependam exclusivamente de preferências pessoais. São os canais de participação que permitem que diferentes perspectivas sejam consideradas. E são as responsabilidades bem definidas que tornam possível cobrar resultados sem transformar a gestão em uma disputa permanente de interesses.

Uma governança bem estruturada não substitui as pessoas. Ela cria condições para que o talento, o conhecimento e a capacidade de contribuição de cada uma delas encontrem espaço dentro da organização.

E isso nos leva a uma reflexão importante sobre liderança.

Quantas boas ideias deixam de avançar porque ninguém lhes dá continuidade? Quantos profissionais deixam de contribuir porque suas opiniões não encontram espaço? Quantas organizações investem em tecnologia, infraestrutura e planejamento, mas negligenciam o ambiente em que suas equipes precisam transformar tudo isso em resultados?

Nem sempre o problema está na ausência de talento ou de boas propostas. Muitas vezes, está na forma como a organização decide, distribui responsabilidades e permite que as pessoas participem da construção das soluções.

Existe uma diferença importante entre uma empresa que declara valorizar pessoas e outra que organiza sua gestão para demonstrar isso na prática.

A primeira depende da disposição individual de suas lideranças. A segunda transforma esse compromisso em uma responsabilidade institucional.

E, curiosamente, depois de todo esse caminho, voltamos ao ponto de partida.

Às pessoas.

Porque nenhuma estrutura de governança funciona sozinha. São pessoas que definem prioridades, tomam decisões, administram recursos, assumem responsabilidades e determinam, diariamente, se os compromissos de uma organização serão respeitados.

Foi o S que me fez enxergar o potencial de transformação das pessoas. Foi o G que me mostrou como criar as condições para que esse potencial se transforme em realidade.

É por isso que esta coluna começa pelo G. Não porque a governança seja mais importante que as pessoas, mas porque ela é fundamental para garantir que a valorização humana não dependa apenas da sensibilidade de quem está temporariamente no comando.

E deixo uma provocação para quem ocupa uma posição de liderança: se você deixasse sua função amanhã, as pessoas da sua equipe continuariam encontrando as mesmas oportunidades de participação, desenvolvimento e reconhecimento?

Ou tudo aquilo que você construiu depende exclusivamente da sua presença?

Essa resposta revela muito sobre a governança da sua organização.

Porque valorizar pessoas é uma escolha de liderança. Mas garantir que elas continuem sendo valorizadas é uma decisão de governança.

“A opinião deste colunista não reflete, necessariamente, a opinião da RedeTV! Espírito Santo.”

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