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⁠Uvas & Vinhos

Caballo Loco: quando a ousadia criou um dos maiores ícones do vinho chileno

Na coluna anterior falamos da nossa viagem ao Chile e sobre um aclamado vinho chileno, o Cabo de Hornos, que não é comercializado em terras capixabas. Nessa mesma viagem tivemos a oportunidade de conhecer e degustar outro vinho também aclamado, tanto no Chile quanto mundo afora. O vinho tema desta coluna se encontra à venda em Vitória, desde os de entrada quanto o ícone da vinícola, Viña Valdivieso, o Caballo Loco.

Há vinhos que encantam pelo aroma, outros pela elegância. E há aqueles cuja própria história já justifica abrir uma garrafa. O Caballo Loco, da tradicional Viña Valdivieso, pertence a essa rara categoria. É um vinho que nasceu da ousadia de desafiar regras centenárias da enologia e transformou a irreverência em sua principal assinatura.

Lançado em 1995, o Caballo Loco Nº 1 surgiu da inquietação do enólogo Luis Simmian. Ao percorrer as caves da Valdivieso, Simmian encontrou barricas de diferentes safras, castas e regiões do Chile, todas com qualidade extraordinária. Em vez de engarrafá-las separadamente, decidiu criar um único vinho reunindo o melhor de cada uma delas. A ideia parecia quase uma heresia para os padrões da época, mas acabou dando origem a um dos mais respeitados vinhos da América do Sul.

O segredo do Caballo Loco permanece praticamente o mesmo desde sua criação. A cada nova edição, parte do vinho anterior é preservada e incorporada ao novo blend, em um sistema inspirado na tradicional solera, utilizada há séculos na produção dos vinhos de Jerez, na Espanha. Assim, cada garrafa leva consigo um pequeno fragmento da primeira edição, criando uma verdadeira linha do tempo líquida, onde passado e presente convivem harmoniosamente.

Após Luis Simmian estabelecer a identidade do projeto, a missão de dar continuidade a essa obra coube ao australiano Brett Jackson, atual enólogo-chefe da Viña Valdivieso. Jackson preserva a essência concebida pelo criador, acrescentando novas interpretações dos terroirs chilenos sem jamais perder a personalidade que tornou o Caballo Loco um vinho cultuado por apreciadores em todo o mundo.

Entre as perguntas mais frequentes feitas pelos consumidores está uma curiosidade que salta aos olhos: por que existem tantos rótulos de cores diferentes?

A resposta está justamente na filosofia do vinho. As cores não representam níveis de qualidade nem estilos distintos. Elas identificam cada edição do Caballo Loco, já que o vinho não segue o conceito tradicional de safra anual. Cada lançamento possui uma composição exclusiva, resultado da combinação de vinhos de diferentes colheitas e origens. A identidade visual muda para marcar essa individualidade, tornando cada edição uma peça única, tanto para apreciadores quanto para colecionadores.

Com o passar dos anos, o projeto foi ampliado para incluir a linha Caballo Loco Grand Cru, dedicada a terroirs específicos do Chile. Também nesses rótulos as cores assumem papel importante, identificando diferentes regiões vitivinícolas e ressaltando a riqueza geográfica de um país cuja diversidade climática figura entre as maiores do planeta.

O próprio nome Caballo Loco também carrega uma bela história. Ele homenageia Jorge Coderch, executivo da Viña Valdivieso conhecido entre os amigos pelo apelido de “Caballo Loco”, em razão de sua personalidade inquieta, criativa e destemida. Não poderia haver inspiração melhor para um vinho que rompeu paradigmas e conquistou reconhecimento internacional justamente por fazer aquilo que parecia improvável.

No mundo do vinho, costuma-se dizer que tradição é repetir com excelência aquilo que deu certo durante séculos. O Caballo Loco provou que, às vezes, tradição também nasce da coragem de inovar. Trinta anos depois de sua primeira edição, continua sendo um dos maiores embaixadores da enologia chilena, lembrando-nos de que algumas das melhores histórias começam exatamente quando alguém decide seguir um caminho diferente.

Brinde da semana

Ao servir uma taça de Caballo Loco, lembre-se de que você não estará degustando apenas um grande vinho chileno. Em cada gole há uma pequena parcela de sua própria história, preservada desde 1995. Poucos vinhos no mundo conseguem oferecer ao apreciador o privilégio de provar, literalmente, o passado e o presente na mesma taça.

Até a próxima semana, mas lembre-se: beba com moderação.

“A opinião deste colunista não reflete, necessariamente, a opinião da RedeTV! Espírito Santo.”

Publicitário; cursou Artes Plásticas na UFES; Enófilo, escreve sobre vinhos desde2010. Já escreveu sobre o tema em vários veículos de comunicação: revista SIM; jornais Em Pauta, O Ponto; Século Diário (jornal online); MovNews (jornal online). Assessor de Comunicação da PMV de 1994 a 2002; Assessor Técnico da Imprensa Oficial do ES de 2003 a 2019.

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