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⁠Uvas & Vinhos

Barolo: o rei dos vinhos, o vinho dos reis Parte I

Nas colinas do Piemonte, uma uva chamada Nebbiolo, uma mulher visionária, um estadista e dois enólogos transformaram um vinho quase desacreditado em uma das maiores expressões da vitivinicultura mundial.

Já confessei minha preferência pelos vinhos italianos e isto não tem nada a ver com a minha descendência italiana, mas sim pela maneira como a Itália produz seus vinhos. Nesta coluna iremos falar sobre o Barolo, o vinho que tem o DNA da nobreza europeia.

Há vinhos que simplesmente se bebem. Outros precisam ser descobertos. E existem aqueles que, antes mesmo de chegarem à taça, carregam consigo uma história tão grandiosa quanto o líquido que repousa dentro da garrafa.

O Barolo pertence a essa última categoria.

Nas colinas de Langhe, no Piemonte, no noroeste da Itália, nasceu um vinho que ganhou uma das mais majestosas definições do mundo: “o rei dos vinhos e o vinho dos reis”.

Não foi por acaso.

O Barolo construiu sua reputação entre a aristocracia piemontesa e, especialmente, junto à Casa de Saboia, a dinastia que governava o Piemonte e que teria papel decisivo na unificação italiana. O vinho passou a frequentar mesas nobres e tornou-se símbolo de prestígio, poder e sofisticação.

Mas a história do Barolo é muito mais interessante do que simplesmente a de um vinho apreciado por reis.

É a história de uma transformação.

Antes do rei, havia a Nebbiolo

Para compreender o Barolo, é preciso primeiro conhecer sua majestade silenciosa: a Nebbiolo, uva autóctone do Piemonte e protagonista absoluta desse vinho.

O nome provavelmente vem de “nebbia”, palavra italiana para neblina. E a explicação parece quase poética.

A Nebbiolo amadurece tarde, geralmente em outubro, justamente quando as primeiras neblinas do outono europeu começam a envolver as colinas piemontesas.

Outra interpretação associa o nome à aparência esbranquiçada das uvas maduras, cobertas pela pruína, aquela fina camada natural que parece envolver os bagos em uma névoa.

Seja qual for a origem exata, o nome parece ter sido escolhido pelo próprio destino.

A Nebbiolo é uma uva de personalidade difícil. Brota cedo, ficando exposta às geadas da primavera, mas amadurece tarde. É exigente quanto ao local onde é plantada e não entrega facilmente seus melhores frutos.

Em compensação, quando encontra seu território ideal, pode produzir vinhos de extraordinária longevidade, perfume e complexidade.

E encontrou nas Langhe seu grande palco.

O Barolo que conhecemos precisou ser inventado

A grande surpresa da história é que o Barolo nem sempre foi aquele vinho seco, austero, profundo e longevo que hoje conhecemos.

No passado, os vinhos produzidos com Nebbiolo na região podiam apresentar características mais doces e até certo caráter frisante.

Foi preciso mudar a maneira de vinificar.

E é justamente nesse momento que surge uma das personagens mais fascinantes dessa história: Giulia Colbert Falletti, a Marquesa de Barolo.

De origem francesa, Giulia casou-se com Carlo Tancredi Falletti e tornou-se proprietária de extensas terras na região de Barolo.

Visionária, percebeu que aquela Nebbiolo difícil poderia produzir algo muito maior.

Em uma época em que a vitivinicultura ainda estava longe de possuir os conhecimentos técnicos atuais, ela apostou na modernização da produção, investiu em instalações e procurou profissionais capazes de transformar aquele vinho instável em um produto de qualidade, capaz de envelhecer e conquistar outras mesas além das fronteiras do Piemonte.

Giulia acreditou no vinho quando ele ainda não tinha a fama que hoje o acompanha.

E essa talvez seja uma das mais belas ironias da história do Barolo: uma mulher de origem francesa ajudou a transformar uma uva profundamente piemontesa em um dos maiores símbolos do vinho italiano.

Cavour e a ambição de criar um grande vinho

Outra personagem fundamental entra em cena: Camillo Benso, Conde de Cavour.

Político, estadista e uma das figuras centrais do processo de unificação italiana, Cavour também era proprietário de terras e apaixonado pela viticultura.

Ele conhecia os grandes vinhos franceses e compreendia que o Piemonte precisava produzir vinhos capazes de competir em qualidade, estrutura e capacidade de envelhecimento com aqueles que dominavam as grandes mesas europeias.

Cavour não queria apenas melhorar um vinho.

Queria criar um vinho que pudesse representar a excelência do Piemonte.

E encontrou na Nebbiolo a matéria-prima perfeita.

Staglieno, Oudart e a revolução dentro das adegas

É aqui que a história fica ainda mais interessante.

Durante muito tempo, Louis Oudart, enólogo francês, foi apontado como o grande responsável pela transformação do Barolo em um vinho seco e moderno.

Mas pesquisas históricas posteriores revelaram um personagem que merece ocupar lugar de destaque: Paolo Francesco Staglieno.

Staglieno desenvolveu e difundiu métodos de vinificação destinados a produzir vinhos secos, estáveis e capazes de envelhecer. Seu trabalho foi particularmente importante para a produção de vinhos de Nebbiolo destinados às propriedades de Cavour.

Louis Oudart também teve papel importante nessa transformação, trabalhando com produtores piemonteses e contribuindo para o aprimoramento técnico da elaboração dos vinhos.

Portanto, talvez seja mais correto dizer que o Barolo moderno não nasceu da genialidade de um único homem ou de uma única mulher, mas do encontro entre visão, técnica e perseverança.

Giulia acreditou.

Cavour apostou.

Staglieno aprimorou.

Oudart contribuiu.

E a Nebbiolo fez o restante.

Bem caro leitor, esta linda história terá continuidade na próxima coluna, afinal, é muito assunto para o apreciador de vinhos em uma única coluna.
Então, até a próxima quarta-feira.

“A opinião deste colunista não reflete, necessariamente, a opinião da RedeTV! Espírito Santo.”

Publicitário; cursou Artes Plásticas na UFES; Enófilo, escreve sobre vinhos desde2010. Já escreveu sobre o tema em vários veículos de comunicação: revista SIM; jornais Em Pauta, O Ponto; Século Diário (jornal online); MovNews (jornal online). Assessor de Comunicação da PMV de 1994 a 2002; Assessor Técnico da Imprensa Oficial do ES de 2003 a 2019.

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