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⁠Uvas & Vinhos

Barolo: o rei dos vinhos, o vinho dos reis Parte II: Quando o vinho encontrou o tempo

Caro leitor, dissemos na coluna anterior que daríamos continuidade à bela história do vinho italiano Barolo. Afinal, havia muito assunto para uma única coluna; então, vamos dar continuidade a este tema delicioso.

A verdadeira grandeza do Barolo, entretanto, não está apenas em sua história.

Está na taça.

A Nebbiolo possui uma combinação extraordinária de acidez, taninos, álcool, perfume e estrutura.

Quando jovem, o Barolo pode ser quase desafiador. Seus taninos são firmes, sua acidez é evidente e sua estrutura parece pedir paciência.

Mas o tempo é seu grande aliado.

Anos de envelhecimento podem transformar a austeridade juvenil em elegância.

A fruta dá lugar a camadas mais complexas. Surgem aromas de rosas, violetas, cerejas, especiarias, alcaçuz, tabaco, couro e, em grandes exemplares, as inconfundíveis notas de trufa.

É como se o vinho contasse uma segunda história depois de engarrafado.

E talvez seja justamente isso que diferencia os grandes vinhos dos vinhos apenas bons: a capacidade de mudar sem perder sua identidade.

Uma curiosidade: o rei também tem seu território

O Barolo é produzido exclusivamente com Nebbiolo e possui uma área de produção delimitada nas Langhe, envolvendo 11 municípios.

Entre eles estão Barolo, La Morra, Monforte d’Alba, Serralunga d’Alba, Castiglione Falletto, Novello, Grinzane Cavour, Verduno, Diano d’Alba, Cherasco e Roddi.

E aqui aparece outra curiosidade deliciosa da história.

Grinzane Cavour recebeu esse nome em homenagem justamente ao estadista que foi proprietário do castelo local e que teve papel importante no desenvolvimento do Barolo.

Assim, a própria geografia das Langhe guarda capítulos da história desse vinho.

Por que “vinho dos reis”?

A expressão não deve ser entendida como um título oficial concedido por uma monarquia.

É, sobretudo, uma maneira de traduzir a extraordinária reputação que o Barolo conquistou no século XIX junto à aristocracia e à Casa de Saboia.

Seu prestígio cresceu ao lado do poder político piemontês e, posteriormente, da construção da Itália unificada.

O Barolo tornou-se um vinho de representação.

Um vinho para oferecer.

Um vinho para celebrar.

Um vinho para guardar.

E, sobretudo, um vinho para impressionar.

Foi assim que nasceu a famosa frase:

“O rei dos vinhos, o vinho dos reis.”

A mulher que acreditou antes de todos

Talvez a maior homenagem que se possa fazer ao Barolo seja lembrar que, por trás de sua majestade, houve alguém que acreditou quando ainda não havia certezas.

Giulia Colbert Falletti, Marquesa de Barolo, não criou sozinha o vinho que hoje conhecemos. Mas sua visão foi decisiva para que ele pudesse se transformar.

Ela enxergou futuro onde muitos viam apenas tradição.

E isso talvez seja a essência de todo grande vinho.

Porque uma garrafa excepcional não nasce apenas de uma boa uva.

Nasce quando alguém olha para uma vinha e consegue imaginar aquilo que ela ainda poderá ser.

Na taça, a história continua

Hoje, quando uma garrafa de Barolo é aberta, não estamos simplesmente diante de um vinho italiano.

Estamos diante de um pedaço das Langhe.

Da neblina de outubro.

Das mãos que colheram a Nebbiolo.

Das adegas onde Staglieno e Oudart ajudaram a transformar técnicas.

Da ambição de Cavour.

Da visão de Giulia.

E de uma aristocracia que ajudou a transformar aquele vinho em símbolo de uma terra e, depois, de uma nação.

Talvez seja por isso que o Barolo exija respeito.

Ele não é um vinho de pressa.

Pede tempo para ser servido, tempo para respirar e, sobretudo, tempo para ser compreendido.

Na taça, sua cor pode parecer menos exuberante do que sua fama faria imaginar. Mas basta aproximar o nariz para perceber que sua grandeza não está na aparência.

Está na profundidade.

E quando finalmente chega ao paladar, a Nebbiolo revela sua verdadeira natureza: a força de um rei, a elegância de um aristocrata e a memória de uma terra que aprendeu a transformar a neblina em vinho.

Porque o Barolo não nasceu rei.

Tornou-se rei.

E talvez essa seja a mais bonita de todas as histórias que o vinho pode contar.

Até a próxima semana, mas lembre-se: bebida alcoólica e direção não termina em uma boa história.

“A opinião deste colunista não reflete, necessariamente, a opinião da RedeTV! Espírito Santo.”

Publicitário; cursou Artes Plásticas na UFES; Enófilo, escreve sobre vinhos desde2010. Já escreveu sobre o tema em vários veículos de comunicação: revista SIM; jornais Em Pauta, O Ponto; Século Diário (jornal online); MovNews (jornal online). Assessor de Comunicação da PMV de 1994 a 2002; Assessor Técnico da Imprensa Oficial do ES de 2003 a 2019.

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