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⁠Uvas & Vinhos

Curiosidades de Dona Ferreirinha — Cinco histórias de uma mulher extraordinária

Nas colunas de 16/09 e 23/09, parte I e II, respectivamente, contamos a história de Dona Ferreirinha.
Encerraremos o tema com cinco curiosidades de Dona Ferreirinha.

Cinco histórias de uma mulher extraordinária

A história de Antónia Adelaide Ferreira, a célebre Dona Ferreirinha, é feita de vinho, negócios, tragédias, coragem e algumas histórias que ganharam contornos de lenda. Cinco episódios ajudam a compreender por que seu nome permanece indissociável da história do Douro.

1. O naufrágio que levou o Barão de Forrester

Em 1861, o Douro ainda era um rio indomável. As viagens eram feitas sobretudo em barcos rabelos e alguns trechos ofereciam perigos que hoje já não existem da mesma maneira.

Ao regressar da Quinta do Vesúvio, uma embarcação que transportava Dona Antónia, seu marido Francisco José de Sousa Torres, o Barão de Forrester e outras pessoas naufragou no temido Cachão da Valeira.

Dona Antónia e Silva Torres conseguiram sobreviver. O Barão de Forrester, porém, desapareceu nas águas e seu corpo jamais foi encontrado. A tragédia entrou para a memória do Douro.

Ao redor desse episódio nasceu uma das histórias mais famosas sobre Ferreirinha: a de que suas volumosas saias teriam ajudado a mantê-la à tona. A mesma tradição conta que Forrester teria afundado por carregar consigo um cinto cheio de moedas de ouro.

O primeiro detalhe pertence à tradição popular; o naufrágio e o desaparecimento do Barão são fatos históricos documentados.

2 O Vesúvio era muito mais do que uma quinta de vinho

A Quinta do Vesúvio foi uma das propriedades mais importantes da trajetória de Dona Antónia.

Ali, ela não pensava somente em vinho. Experimentou outras atividades agrícolas, entre elas a produção de azeite. Em 1849, por exemplo, mandou plantar cerca de mil oliveiras no Vesúvio e em Vargelas. Também chegou a experimentar a criação do bicho-da-seda, iniciativa que acabou por fracassar em 1868.

Essa diversidade revela uma característica fundamental de Ferreirinha: ela era, antes de tudo, uma empresária rural, capaz de testar novas possibilidades e adaptar suas propriedades às circunstâncias.

E foi no Vesúvio que ocorreu também uma das grandes tragédias de sua vida: o naufrágio que vitimou Forrester.

3 Aos 76 anos, ela decidiu criar uma quinta do zero

Talvez nenhum episódio demonstre melhor a extraordinária energia de Dona Antónia do que a história da Quinta do Vale Meão.

Em 1877, já com 66 anos, ela comprou em hasta pública (termo usado à época para leilão judicial) cerca de 300 hectares de terras virgens na região de Vila Nova de Foz Côa. Não se tratava simplesmente de adquirir uma quinta pronta: era preciso construir uma propriedade praticamente do nada.

Dez anos depois, em 1887, iniciou o grande projeto de transformação do Monte Meão. Durante os anos seguintes foram plantadas vinhas, oliveiras e amendoeiras, construídos edifícios, armazéns e adegas.

A obra avançou até 1895, apenas um ano antes de sua morte.

Por isso, o Vale Meão é frequentemente considerado a obra mais ousada de sua vida empresarial: ao contrário de outras propriedades que herdou ou comprou já estruturadas, essa foi uma quinta que Dona Antónia criou praticamente do zero, aplicando nela toda a experiência acumulada ao longo de décadas no Douro.

4 O curioso encontro entre Dona Ferreirinha e o Barca Velha

Aqui está uma das histórias mais bonitas — e menos conhecidas — de seu legado.

Dona Antónia nunca provou o Barca Velha.

E há uma razão simples: ela morreu em 1896, enquanto o primeiro Barca Velha só seria produzido em 1952, mais de meio século depois.

Mas existe uma ligação profunda entre os dois.

A Quinta do Vale Meão, criada por Dona Antónia, tornou-se décadas depois o berço do Barca Velha. Foi ali que Fernando Nicolau de Almeida, ligado à Casa Ferreirinha, desenvolveu o projeto que daria origem ao lendário vinho.

A primeira safra do Barca Velha é de 1952. Portanto, quando a primeira garrafa daquele que se tornaria um dos grandes ícones do vinho português nasceu, estava sendo utilizada uma propriedade concebida pela própria Ferreirinha.

Há, portanto, uma espécie de ponte entre duas gerações de visionários:

Dona Antónia criou a terra. Fernando Nicolau de Almeida criou o vinho.

E o Vale Meão tornou-se o elo entre essas duas histórias.

5 Ferreirinha não foi apenas uma empresária: deixou uma filosofia

Talvez o maior legado de Dona Antónia não esteja em uma única quinta ou em uma única garrafa.

Está na maneira como ela enfrentou as crises.

Quando a filoxera destruiu vinhedos, procurou soluções. Quando uma propriedade enfrentava dificuldades, procurava novas formas de torná-la produtiva. Quando o Douro parecia limitado pelas dificuldades de transporte e pelas condições agrícolas, investiu em infraestrutura e diversificação.

E quando já poderia simplesmente desfrutar da fortuna construída durante uma vida inteira, decidiu criar o Vale Meão.

Essa capacidade de pensar no futuro quando o presente parecia desfavorável talvez seja a característica que melhor define Ferreirinha.

O Barca Velha, criado décadas depois de sua morte, acabou transformando-se em uma das maiores expressões dessa herança. Não porque Dona Antónia tenha participado diretamente de sua criação, mas porque o vinho nasceu de uma tradição empresarial e vitivinícola que ela ajudou a construir — e teve no Vale Meão um de seus capítulos mais extraordinários.

No fim, talvez seja essa a melhor maneira de compreender Dona Ferreirinha:

ela não deixou apenas vinhas para seus descendentes. Deixou-lhes a coragem de imaginar o que ainda não existia.

E, no Douro, poucas heranças são tão valiosas quanto essa.

Com estas cinco história sobre a célebre Dona Ferreirinha encerramos esta coluna fazendo um brinde à mulher que não deixou o Douro morrer.

Até a próxima semana, mas lembre-se: bebida alcoólica e direção não se harmonizam.

“A opinião deste colunista não reflete, necessariamente, a opinião da RedeTV! Espírito Santo.”

Publicitário; cursou Artes Plásticas na UFES; Enófilo, escreve sobre vinhos desde2010. Já escreveu sobre o tema em vários veículos de comunicação: revista SIM; jornais Em Pauta, O Ponto; Século Diário (jornal online); MovNews (jornal online). Assessor de Comunicação da PMV de 1994 a 2002; Assessor Técnico da Imprensa Oficial do ES de 2003 a 2019.

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