Compartilhe

Mundo em Perspectiva

Por que o Patriarcado Teme o Voto Feminino?

Com as eleições presidenciais neste ano de 2026, o voto feminino, um direito conquistado no Brasil em 1932, voltou com força a ser pauta de questionamento.

Tornou-se comum nas redes sociais vermos ideias conservadoras de que mulheres devem perder o direito ao voto. Políticos ou influenciadores conservadores vem com a argumentação de que mulheres “votam mal” e que essas são as culpadas das mazelas da sociedade, se opondo fortemente ao voto feminino.

A jornalista Susan Faludi nos apresenta o termo “backlash”, que seria “um contra-ataque para impedir o progresso da mulher”, atacando seus direitos e sua autonomia. Segundo Faludi, o contra-ataque é feito por meio de críticas ao feminismo, colocando-o como prejudicial à mulher e tentando convencê-las de que “seus sentimentos de angústia e insatisfação são resultado do excesso de independência, ao mesmo tempo que destrói gradativamente os mínimos avanços que as mulheres realizaram no trabalho, na política e em sua forma de pensar.” Vemos então, um direito conquistado correndo o risco de ser perdido. Segundo Hannah Arendt, a revogação de uma conquista política raramente começa com uma proibição imediata, mas por um processo gradual de degradação simbólica, discursiva e institucional, exatamente o que ocorre atualmente.

O controle do voto feminino surge com o objetivo de atender os interesses do patriarcado e da “machosfera”, termo que se refere a comunidade on-line de homens que pregam ideais de domínio masculino na sociedade, controle sobre as mulheres e a inferioridade das mesmas. Segundo Simone Beauvoir, quando uma mulher vota pelos seus interesses ela para de depender do homem como um mediador entre ela e o Estado, passando a participar ativamente da sociedade e política, buscando pelos seus direitos.

Dessa feita, certos homens, por sua vez, passaram a atacar o voto feminino e a tentar manipular o pensamento ideológico das mulheres a seu alcance, as convocando às urnas para defender a família tradicional, a fé e a ordem social contra o liberalismo social e pautas progressistas. Isso pode ser considerado um contra-ataque visto que é o objetivo que sejam preservados os privilégios de uma ordem patriarcal e manter a dominação, na sociedade e sobre a autonomia feminina.

Para Beauvoir, tal negação ao sufrágio se deve também a ideologia que deu base à formação da nossa sociedade, onde a sociedade patriarcal estruturou o homem como o Sujeito e o Absoluto (o “Um”), enquanto a mulher foi historicamente remetida à condição do “Outro”, o ser inessencial e relativo.

O voto é a ferramenta política pela qual as mulheres conquistaram leis necessárias para a sua proteção e, o questionamento ao direito de voto delas, revela o receio dos homens não quererem que sua impunidade seja ameaça. Atualmente, mais de 98% dos casos de feminicídio, demora pelo menos até um ano para que o agressor seja condenado e preso e cerca de 10% das vítimas de feminicídio tinham medida protetiva contra o assassino. Esses altos índices de morosidade na condenação e as falhas na efetividade dos aparatos legais mantêm nos agressores a confiança na impunidade, realidade ilustrada por casos como o do goleiro Bruno e o Caso Araceli.

Por isso, além do voto, marcos legais como a Lei Maria da Penha, a tipificação do feminicídio e a Lei Mariana Ferrer também passam a ser atacados e rotulados como “privilégios”. Em suma, a reação contra a mulher na política evidencia que a estrutura patriarcal não teme apenas compartilhar o espaço público, mas teme, sobretudo, perder o controle sobre os corpos femininos.

“A opinião deste colunista não reflete, necessariamente, a opinião da RedeTV! Espírito Santo.”

Formada em Relações Internacionais e graduanda em Administração, possui atuação voltada para direitos humanos, política internacional e questões sociais contemporâneas. Pesquisadora na área de políticas públicas e proteção social, dedica-se ao estudo de temas como migrações forçadas, refúgio, gênero e desigualdades.
Integrou iniciativas de acolhimento a refugiados no Espírito Santo e acompanha de perto debates globais sobre questões humanitárias e cooperação internacional.

Colunas Recentes​