Há quem escreva poemas com tinta e papel. Outros preferem escrevê-los com a memória, os sentimentos e as experiências que o tempo se encarrega de amadurecer. E há aqueles que, diante de uma taça de vinho, descobrem que a vida também pode ser declamada em aromas, sabores e emoções.
Neste 20 de outubro, quando celebramos o Dia do Poeta, a coluna Uvas & Vinhos propõe um brinde àqueles que transformam sentimentos em palavras e à bebida que, há milênios, inspira versos, desperta paixões e acompanha os grandes encontros da humanidade.
Afinal, o que seriam o vinho e a poesia senão duas extraordinárias manifestações da sensibilidade humana? Um nasce da generosidade da terra, amadurece sob o sol e encontra sua expressão definitiva nas mãos do viticultor e do enólogo. A outra nasce da observação do mundo, amadurece na alma e ganha vida pelas mãos de quem domina a arte das palavras.
Ambos, entretanto, compartilham um segredo: precisam de tempo, inspiração e sensibilidade para revelar sua verdadeira grandeza.
Quando o vinho inspira os poetas
A relação entre vinho e poesia atravessa séculos e civilizações. Na Grécia antiga, o vinho estava associado a Dionísio, deus do vinho, da fertilidade e do teatro. Nas celebrações dedicadas à divindade, bebida, música e manifestações artísticas encontravam espaço para florescer.
Entre os romanos, Baco também simbolizava a celebração dos prazeres da vida. O vinho ocupava lugar importante nos banquetes, encontros em que a conversa, a filosofia e a literatura se entrelaçavam.
Não demorou para que a bebida conquistasse as páginas da literatura universal, tornando-se metáfora de amor, liberdade, amizade, melancolia e passagem do tempo.
O vinho, afinal, oferece aos poetas um universo inesgotável de imagens. A videira representa a resistência; a vindima, a recompensa do trabalho; a fermentação, a transformação; e o envelhecimento, a sabedoria que somente o tempo consegue oferecer.
Não é difícil compreender por que tantos escritores encontraram na bebida uma fonte de inspiração.
O poeta chileno Pablo Neruda, por exemplo, dedicou ao vinho uma de suas célebres odes. Em sua Ode ao Vinho, a bebida ganha presença poética e se transforma em símbolo de celebração, convivência e prazer compartilhado.
Neruda compreendia que o vinho não pertence apenas ao universo da enologia. Pertence também à mesa, à amizade e à memória afetiva dos povos.
Uma garrafa aberta entre amigos pode guardar histórias que jamais serão registradas em um livro. Ainda assim, algumas dessas histórias permanecem na lembrança por muito mais tempo do que certas páginas impressas.
Entre Fernando Pessoa e Carlos Drummond, a poesia também brinda à vida
Na literatura de língua portuguesa, encontramos outros caminhos para essa aproximação entre o vinho e a poesia.
Fernando Pessoa, um dos maiores nomes da literatura portuguesa, fez da multiplicidade da existência e da inquietação humana algumas das marcas de sua obra. Seus versos nos convidam a olhar para dentro, questionar certezas e descobrir que a realidade pode assumir diferentes significados conforme o olhar de quem a contempla.
Não seria essa também uma das experiências proporcionadas por um grande vinho?
A mesma garrafa, compartilhada por pessoas diferentes, pode despertar impressões distintas. Para uns, predominam as frutas maduras; para outros, as especiarias, as flores ou as lembranças de uma viagem. Cada apreciador encontra algo de si naquilo que degusta.
Já Carlos Drummond de Andrade, com sua capacidade singular de encontrar poesia nos acontecimentos cotidianos, nos lembra que a beleza nem sempre está nos grandes acontecimentos. Muitas vezes, ela se esconde nas pequenas coisas: uma conversa, um reencontro, uma mesa compartilhada ou um instante de silêncio.
E poucas experiências traduzem tão bem essa simplicidade carregada de significado quanto servir uma taça de vinho a alguém querido.
Não é preciso uma ocasião extraordinária para celebrar a vida. Às vezes, a ocasião nasce justamente do desejo de estar presente.
O enólogo também é um poeta?
A pergunta pode parecer provocativa, mas merece reflexão.
O poeta trabalha com palavras. O enólogo trabalha com uvas, fermentações, aromas e sabores. Ambos, entretanto, interpretam a natureza e procuram revelar aquilo que existe de especial em sua matéria-prima.
O poeta seleciona palavras para traduzir sentimentos. O enólogo acompanha a transformação do fruto, respeita as características da safra e procura expressar, no vinho, a identidade do terroir.
Um organiza versos; o outro, processos de elaboração. Um busca a palavra capaz de emocionar; o outro, o equilíbrio capaz de surpreender o paladar.
E ambos sabem que nem tudo pode ser explicado pela técnica.
Há poemas cuja força ultrapassa a gramática. Da mesma forma, existem vinhos cuja personalidade não se resume a notas de degustação, pontuações ou classificações.
São experiências que precisam ser sentidas.
Talvez seja essa a maior aproximação entre os dois ofícios: a capacidade de transformar conhecimento em emoção.
Um grande vinho não nasce apenas de boas uvas, assim como um grande poema não depende exclusivamente de palavras bonitas. É necessário que exista uma identidade, uma intenção e algo verdadeiro a ser revelado.
No vinhedo, essa história começa muito antes da colheita. Na poesia, pode começar com uma lembrança antiga, uma paixão, uma perda ou simplesmente a contemplação de um dia comum.
Em ambos os casos, a criação exige sensibilidade para perceber o que nem sempre está visível.
A poesia que cabe em uma taça
Para quem aprecia vinhos, a degustação pode ser entendida como uma espécie de leitura sensorial.
A cor apresenta as primeiras impressões. Os aromas abrem caminhos para a imaginação. O paladar revela estrutura, textura, acidez e persistência. E, ao final, permanece uma sensação que nem sempre conseguimos traduzir em palavras.
É nesse momento que a poesia se faz presente.
Um espumante pode lembrar a alegria de uma conquista. Um vinho branco, com seu frescor, pode evocar a brisa do mar. Um tinto elegante, amadurecido lentamente, pode despertar a memória de um jantar inesquecível.
Não são apenas aromas e sabores. São associações que a experiência humana constrói.
O vinho oferece estímulos; a memória acrescenta significados.
A poesia funciona de maneira semelhante. Um verso pode parecer simples em determinado momento da vida e adquirir uma profundidade surpreendente anos depois. A palavra permanece, mas o leitor muda.
Talvez por isso o vinho e a poesia sejam companheiros tão antigos: ambos permitem que revisitemos nossas histórias e encontremos novos sentidos naquilo que julgávamos conhecer.
Um brinde aos poetas e aos apreciadores da vida
Em tempos de pressa, excesso de informações e encontros cada vez mais breves, o vinho e a poesia nos fazem um convite à contemplação.
O primeiro pede tempo para revelar suas características. A segunda pede atenção para que suas palavras encontrem morada em nós.
Ambos nos lembram de que a vida não deve ser medida apenas pela quantidade de experiências acumuladas, mas também pela intensidade com que somos capazes de vivê-las.
Neste Dia do Poeta, vale abrir um livro, escolher alguns versos e acompanhar a leitura com uma boa taça de vinho. Pode ser um rótulo português do Douro, um elegante Barolo italiano, um expressivo Cabernet Sauvignon chileno ou um espumante brasileiro. A escolha importa menos do que a experiência de apreciar cada um deles com curiosidade e sensibilidade.
E, se houver boa companhia, melhor ainda. Porque o vinho ganha novos significados quando compartilhado, assim como a poesia se multiplica quando encontra alguém disposto a escutá-la.
Aos poetas, nossa homenagem por transformarem sentimentos em palavras. Aos viticultores e enólogos, nosso reconhecimento por traduzirem a generosidade da terra em vinhos capazes de emocionar. E aos leitores e apreciadores, o convite para que nunca abandonem a capacidade de se surpreender.
Porque a poesia é o vinho da alma, e o vinho, quando encontra a sensibilidade de quem o aprecia, transforma cada gole em uma história que merece ser contada.
E talvez a melhor definição dessa união esteja justamente naquilo que não conseguimos explicar: o instante em que um verso nos emociona e uma taça nos faz recordar que, apesar de todas as dificuldades, a vida continua merecendo um brinde.
Afinal, existem palavras que nos embriagam de beleza e vinhos que nos ensinam a saborear o tempo.
Que nunca nos faltem poetas para traduzir a vida, vinhos para celebrar os encontros e sensibilidade para descobrir que, entre um verso e outro, também existe poesia.
Um brinde aos poetas, aos viticultores e enólogos, afinal, o que seria dos enófilos e apreciadores sem estes dois profissionais que ao longo do tempo vêm contribuindo com a cultura e a produção da bebida dos deuses Baco e Dionísio.
Saúde, cheers, salud, salute, santé!






