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⁠Uvas & Vinhos

SEAN CONNERY, JAMES BOND E DOM PÉRIGNON: UM BRINDE À ETERNIDADE

Entre o charme de um agente secreto, as borbulhas de um grande champanhe e a nobreza de um Sir, uma história de elegância que o tempo não apaga.
Sean Connery ao lado de uma Bond girl

Há homens que interpretam personagens. Outros, raríssimos, transformam personagens em lendas. Sean Connery pertence a essa segunda categoria. Com voz grave, olhar penetrante e uma elegância que dispensava qualquer esforço, o ator escocês deu vida ao agente secreto mais famoso do cinema e ajudou a estabelecer um padrão de sofisticação que atravessou gerações.

No próximo dia 31 de outubro, completam-se seis anos de sua morte. Connery partiu em 2020, aos 90 anos, mas deixou uma herança cinematográfica que continua viva na memória dos amantes da sétima arte. E, para quem aprecia os prazeres da boa mesa e os mistérios de uma taça de vinho, sua passagem pelo universo de James Bond oferece uma associação irresistível: a do agente 007 com o champanhe, particularmente o lendário Dom Pérignon.

Porque, no mundo de Bond, salvar o planeta, conquistar uma mulher fascinante e escolher uma grande bebida pareciam fazer parte da mesma missão.

O nascimento de uma lenda chamada James Bond

Quando Sean Connery vestiu pela primeira vez o elegante smoking de James Bond, em 007 contra o Satânico Dr. No, lançado em 1962, talvez poucos imaginassem que aquele personagem se tornaria um dos maiores ícones da história do cinema.

Criado pelo escritor britânico Ian Fleming, James Bond era um agente do serviço secreto britânico, conhecido pelo código 007, pela inteligência afiada, pela coragem diante do perigo e por uma combinação singular de refinamento e ousadia.

Connery não apenas interpretou Bond: ajudou a definir sua personalidade cinematográfica.

Antes dele, o personagem existia nas páginas dos romances de Fleming. Com ele, ganhou um rosto, uma voz, uma postura e uma maneira muito particular de atravessar situações impossíveis como se estivesse apenas cumprindo mais um compromisso da agenda.

Ao longo de seis filmes oficiais da franquia como protagonista — 007 contra o Satânico Dr. No (1962), Moscou contra 007 (1963), 007 contra Goldfinger (1964), 007 contra a Chantagem Atômica (1965), Com 007 só se Vive Duas Vezes (1967) e 007 — Os Diamantes São Eternos (1971) —, Connery consolidou uma interpretação que permanece como referência para os atores que o sucederam.

Ele também voltou ao papel em 007 — Nunca Mais Outra Vez, de 1983, uma produção independente da série oficial.

Seu Bond era um homem de ação, mas também de pequenos rituais. O automóvel impecável, o relógio elegante, o paletó perfeitamente ajustado e a bebida escolhida com precisão compunham a imagem de alguém que parecia dominar tanto uma sala de cassino quanto uma operação internacional.

E é justamente nesse universo de requinte que o champanhe encontra seu lugar.

Dom Pérignon: as borbulhas que combinam com 007

Entre os símbolos de luxo associados ao universo de James Bond, o champanhe ocupa posição especial. E poucos nomes evocam tanta sofisticação quanto Dom Pérignon.

Produzido pela tradicional casa francesa de mesmo nome, pertencente ao grupo Moët Hennessy, o champanhe carrega uma reputação construída sobre a seleção rigorosa das uvas, o trabalho cuidadoso de elaboração e o longo amadurecimento na adega.

Sua história também está cercada pela figura do monge beneditino Dom Pierre Pérignon, que viveu entre os séculos XVII e XVIII e dedicou parte de sua vida ao aprimoramento dos vinhos da região de Champagne. Embora a tradição popular frequentemente lhe atribua a invenção do champanhe, a história é mais complexa: o desenvolvimento dos vinhos espumantes foi resultado de um processo coletivo, construído ao longo do tempo por diferentes produtores e estudiosos.

O nome Dom Pérignon, entretanto, tornou-se sinônimo de excelência.

Não é difícil compreender por que esse champanhe combina tão bem com o imaginário de James Bond. Suas garrafas representam uma espécie de luxo discreto, reservado a ocasiões especiais, em que cada detalhe importa.

Nos filmes da franquia, o champanhe não aparece apenas como bebida. Ele faz parte da atmosfera: acompanha encontros, celebra vitórias, marca momentos de tensão e oferece uma pausa de prazer em meio a perseguições e intrigas internacionais.

É importante, porém, fazer uma distinção: embora Dom Pérignon esteja associado à imagem de Bond, a franquia apresenta diferentes marcas de champanhe ao longo de sua história. Portanto, não se deve confundir a preferência cinematográfica pelo champanhe com uma exclusividade permanente de uma única casa.

E há uma curiosidade deliciosa para os apreciadores: o gosto de James Bond por bebidas refinadas não se limitava ao champanhe. Seu pedido mais célebre talvez seja o martíni, preparado com vodca, misturado, não agitado — expressão que se tornou uma das frases mais reconhecidas do cinema.

O agente secreto sabia que, em determinadas circunstâncias, até a maneira de preparar uma bebida pode dizer muito sobre quem a pede.

O champanhe como personagem

No cinema, algumas bebidas ultrapassam a condição de simples adereços e passam a representar o espírito de uma época.

O champanhe é uma delas.

Suas borbulhas evocam celebração, conquista, sedução e liberdade. Ao longo dos séculos, a bebida tornou-se presença constante em grandes acontecimentos, das festas aristocráticas às comemorações populares, das conquistas esportivas aos encontros que pedem uma ocasião especial.

No universo de 007, essa imagem encontra um personagem perfeito: um homem que vive entre o perigo e o prazer, entre a disciplina de uma missão e a espontaneidade de um brinde.

A taça de champanhe, nesse contexto, é quase uma extensão do figurino de Bond. Assim como o smoking, ela comunica elegância sem precisar de explicações.

E Dom Pérignon, com sua aura de exclusividade, representa particularmente bem essa linguagem de luxo.

Há, contudo, uma diferença entre a sofisticação cinematográfica e a experiência real do vinho: enquanto Bond parece ter sempre o tempo sob controle, um grande champanhe exige justamente aquilo que suas missões raramente permitem — paciência.

A seleção das uvas, a fermentação, a segunda fermentação em garrafa e o amadurecimento sobre as leveduras são etapas que exigem conhecimento, precisão e tempo. O resultado é uma bebida cuja complexidade pode revelar aromas de frutas, notas cítricas, nuances tostadas e uma textura que varia conforme o estilo e a idade do vinho.

Talvez esteja aí uma das grandes lições escondidas numa taça: a verdadeira elegância não nasce da pressa, mas do cuidado.

De Sean Connery a Sir Thomas Sean Connery

Em 2000, quase quatro décadas depois de transformar James Bond em um ícone cinematográfico, Sean Connery recebeu uma das mais importantes distinções honoríficas britânicas.

A rainha Elizabeth II concedeu-lhe o título de cavaleiro, tornando-o oficialmente Sir Thomas Sean Connery.

A cerimônia ocorreu no Palácio de Holyroodhouse, em Edimburgo, na Escócia, sua terra natal.

Sean Connery: de James Bond ao Oscar e ao título de Sir

A homenagem reconhecia sua contribuição às artes dramáticas e sua trajetória como um dos atores mais influentes de sua geração.

Nascido em 25 de agosto de 1930, em uma família de origem humilde, Connery teve uma juventude muito distante do glamour que posteriormente o cercaria. Antes da carreira cinematográfica, exerceu diferentes atividades profissionais e chegou a trabalhar como modelo.

Sua ascensão foi a história de um homem que conquistou espaço por talento, determinação e personalidade.

A consagração internacional veio com James Bond, mas sua carreira não ficou limitada ao agente secreto. Connery demonstrou versatilidade em produções como O Nome da Rosa, Os Intocáveis — papel que lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante em 1988 — e Indiana Jones e a Última Cruzada.

Sean Connery: de James Bond ao Oscar e ao título de Sir

O título de Sir representou, portanto, mais do que uma homenagem ao homem que interpretou o espião mais famoso do cinema. Foi também o reconhecimento de uma carreira que ultrapassou as fronteiras de um único personagem.

Curiosamente, embora tenha encarnado um agente a serviço da Coroa britânica, Connery era um defensor declarado da identidade escocesa e manifestava apoio à independência da Escócia. Essa combinação entre reconhecimento britânico e orgulho escocês fazia parte da personalidade complexa de um artista que jamais deixou de carregar consigo as marcas de suas origens.

O último brinde

Sean Connery morreu em 31 de outubro de 2020, nas Bahamas, aos 90 anos. Sua partida encerrou uma trajetória extraordinária, mas não apagou a presença daquele homem que parecia ter nascido para vestir um smoking, conduzir um Aston Martin e enfrentar o perigo com um sorriso discreto.

Seis anos depois, James Bond continua sendo um dos personagens mais reconhecidos do cinema mundial, e a interpretação de Connery permanece como uma referência de charme e personalidade.

Para os apreciadores de champanhe, sua imagem também evoca um tempo em que o luxo cinematográfico se manifestava em pequenos gestos: a escolha de uma bebida, o brilho de uma taça, o silêncio que antecede uma frase memorável.

Talvez seja essa a grande afinidade entre Sean Connery, James Bond e um champanhe excepcional: os três compreenderam, cada um à sua maneira, que a elegância verdadeira não precisa de exageros. Ela se revela nos detalhes, na personalidade e na capacidade de transformar um instante em memória.

E se a vida fosse uma missão digna de 007, talvez o melhor encerramento não exigisse uma explosão espetacular, uma perseguição em alta velocidade ou um vilão derrotado.

Bastaria uma garrafa de Dom Pérignon, duas taças e um brinde àqueles que jamais desaparecem por completo.

Porque algumas lendas não envelhecem. Apenas ganham novas histórias a cada vez que alguém se lembra delas.

À memória de Sir Sean Connery: um brinde à elegância, ao cinema e à eternidade.

“A opinião deste colunista não reflete, necessariamente, a opinião da RedeTV! Espírito Santo.”

Publicitário; cursou Artes Plásticas na UFES; Enófilo, escreve sobre vinhos desde2010. Já escreveu sobre o tema em vários veículos de comunicação: revista SIM; jornais Em Pauta, O Ponto; Século Diário (jornal online); MovNews (jornal online). Assessor de Comunicação da PMV de 1994 a 2002; Assessor Técnico da Imprensa Oficial do ES de 2003 a 2019.

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