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Comece pelo G

O poder muda de mãos. E a governança, fica?

Mulher pendurando uma placa com os dizeres 'Sob nova direção' em um escritório com vista para Brasília

As urnas decidiram. Novos governadores foram eleitos, outros receberam a confiança para continuar. Agora começa uma etapa que pode influenciar profundamente os próximos anos de gestão: a transição de governo.

Quem assume precisa conhecer o que encontrará. Quem sai tem a responsabilidade de entregar informações que permitam à instituição continuar funcionando. Mas entre a saída de uma liderança e a chegada de outra existe a responsabilidade sobre aquilo que está sendo administrado. Pontos que não podem ser interrompidos.

E essa discussão não pertence apenas ao setor público.

Nas empresas, a substituição de um CEO, a chegada de uma nova diretoria ou a troca de um conselho de administração também alteram prioridades, relações de poder e processos decisórios. Em ambos os ambientes, a transição pode representar uma oportunidade de evolução ou produzir um período de incerteza, perda de conhecimento e decisões precipitadas.

O problema não é mudar a gestão. É permitir que a mudança desorganize a instituição.

A transição começa antes da posse

Um dos equívocos mais comuns é tratar a transição como um processo de apresentação de equipes, entrega de relatórios e definição de novos ocupantes dos cargos.

Uma transição bem conduzida exige muito mais.

Imagine um governo que assume sem conhecer integralmente seus compromissos orçamentários, os contratos próximos do vencimento, os investimentos em execução ou os riscos jurídicos que podem comprometer decisões futuras.

Agora imagine uma empresa cujo novo presidente decide reorganizar áreas e interromper projetos antes de compreender os compromissos assumidos com clientes, investidores, empregados e fornecedores.

Os ambientes são diferentes, mas a fragilidade é semelhante: decisões tomadas sem informação suficiente podem comprometer resultados construídos ao longo de anos.

É justamente nesse momento que a governança precisa deixar de ser um conceito presente nos discursos institucionais e passar a orientar as decisões.

O que não pode faltar em uma transição?

Para começar, é preciso separar três questões que frequentemente se confundem: o que pertence à instituição, o que representa uma escolha estratégica da gestão anterior e o que precisa ser preservado por obrigação legal, contratual ou operacional.

Uma nova liderança tem legitimidade para rever prioridades. No entanto, mudar a direção não significa ignorar compromissos existentes.

Por isso, uma equipe de transição deveria trabalhar com cinco compromissos fundamentais.

O primeiro é estabelecer uma fotografia real da organização. Não basta apresentar resultados positivos. É necessário conhecer a situação financeira, os contratos vigentes, as obrigações futuras, os projetos em andamento, as pendências regulatórias e os riscos ainda não solucionados.

O segundo é identificar o que não pode parar. No setor público, estamos falando de serviços essenciais, políticas públicas, obras e contratos cuja interrupção pode atingir diretamente a população. Nas empresas, a mesma atenção deve alcançar operações críticas, atendimento aos clientes, obrigações financeiras e relações comerciais.

O terceiro é definir responsabilidades e registrar decisões. Quem fornece as informações? Quem valida os dados? Quais assuntos exigem deliberação imediata? Uma transição sem responsáveis definidos abre espaço para lacunas, conflitos e decisões sem rastreabilidade.

O quarto é preservar a memória institucional. Documentos são importantes, mas não substituem o conhecimento acumulado pelas equipes técnicas. Ouvir quem conhece os processos, compreender decisões anteriores e registrar os motivos das escolhas reduz o risco de repetir erros ou abandonar soluções que funcionam.

O quinto é organizar a mudança com critérios. Rever projetos, estruturas e prioridades faz parte do direito e da responsabilidade de quem assume. Mas decisões dessa natureza precisam considerar custos, riscos, impactos e consequências. Nem tudo deve continuar. Nem tudo precisa mudar.

Continuidade não significa imobilismo

Existe uma diferença importante entre preservar a instituição e preservar todas as decisões de uma gestão.

Governança não é um instrumento para impedir mudanças. É o que permite que elas aconteçam com responsabilidade e gestão de riscos.

Uma política pública ineficiente pode precisar ser reformulada. Um projeto empresarial pode deixar de fazer sentido diante de um novo cenário econômico. Uma estrutura administrativa pode exigir reorganização.

O que não deveria acontecer é a substituição da análise técnica pela simples necessidade de demonstrar que uma nova liderança chegou.

No setor público, a disputa política termina nas urnas, mas a responsabilidade administrativa permanece. No ambiente empresarial, a estratégia pode mudar com o novo comando, mas compromissos e riscos não desaparecem com a troca de executivos.

A legitimidade para decidir não elimina a responsabilidade de compreender as consequências.

O verdadeiro teste da governança

Talvez a pergunta mais importante para as equipes de transição não seja o que a nova gestão pretende mudar, mas o que ela precisa compreender antes de começar a mudar.

Quais decisões não podem esperar? Quais compromissos ultrapassam o mandato ou o ciclo de gestão? Quais informações estão concentradas em poucas pessoas? Que riscos podem se materializar nos primeiros meses? E quais projetos devem ser avaliados antes de qualquer anúncio de continuidade ou interrupção?

Essas perguntas deveriam fazer parte de toda transição, seja na sede de um governo, seja na sala de um conselho de administração.

Porque a força de uma instituição não pode depender exclusivamente da permanência de seus dirigentes.

A boa governança não garante que todas as decisões serão acertadas. Mas cria condições para que elas sejam informadas, justificadas e acompanhadas.

E, em períodos de transição, isso faz toda a diferença.

No fim, governos e empresas precisam responder à mesma questão: quando uma liderança vai embora, ela deixa apenas o cargo ou deixa também uma instituição preparada para seguir em frente?

A resposta diz muito sobre a governança que foi construída. E sobre aquela que ainda precisa de construção.

Comece pelo G.

“A opinião deste colunista não reflete, necessariamente, a opinião da RedeTV! Espírito Santo.”

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