Imagem: The Noun Project
Chegamos ao fim da temporada de Copa Mundial de 2026 e, mesmo não conquistando o Hexa, o futebol tem papel fundamental na nossa sociedade e no mundo. As cinco estrelas já conquistadas foram fundamentais para a construção da identidade brasileira e do fortalecimento político, indo além do esporte e impactando diversos âmbitos.
Desde que o futebol se consolidou como o principal programa da indústria cultural global, ele deixou de ser apenas um espetáculo esportivo para se tornar instrumento de poder.
O futebol passou por uma ideologização e se liga ao conceito de soft power, de Joseph Nye, cujo mostra que quando um país sedia uma Copa do Mundo, ele tenta reconstruir sua imagem perante o mundo. Esse padrão, observável no Brasil de décadas passadas, permanece vivo e até se intensificou nas Copas mais recentes, sediadas pelo Catar (2022) e pelos Estados Unidos, em conjunto ao México e Canadá (2026), evidenciando a instrumentalização política do futebol.
No Brasil, o uso político do Mundial ocorre desde 1938, em que o governo Vargas transformou a participação da seleção na Copa da França em prova de força da identidade nacional recém-consolidada pela República; em 1970, a ditadura militar apropriou-se do tricampeonato para associar o “milagre econômico” à vitória em campo, escondendo a repressão por trás da euforia popular. Décadas depois, o mesmo esporte assumiu função semelhante, porém voltada para fora com as parcerias esportivas junto a países africanos que funcionaram como diplomacia pública, elevando o soft power brasileiro. Em todos esses momentos repete-se o padrão: quanto maior a fragilidade política do governo, mais o futebol é mobilizado como discurso de legitimação.
Esse movimento político vem com uma dimensão econômica que o economista Vincent Mosco descreve como mercantilização, a transformação de valores de uso em valores de troca, alcançando inclusive espaços públicos. Com a Copa no Brasil e a do Catar também, vieram investimentos bilionários em estádios que vieram acompanhados de polêmicas e críticas em suas construções. Já nos Estados Unidos, em 2026, a mercantilização teve seu ápice, com a final sendo o evento esportivo mais caro da história, com ingressos revendidos, em média, por US$ 12.751.
A comparação entre essas três experiências revela aspectos importantes. O Brasil de 1970 escondia a repressão política por trás da euforia coletiva de uma seleção idolatrada; o Catar de 2022 recorreu ao chamado sportswashing para atenuar críticas internacionais sobre direitos humanos, usando o torneio como estratégia deliberada para equilibrar sua posição geopolítica. Já os Estados Unidos de 2026 revelaram uma variação mais explícita e personalizada do fenômeno: o presidente Donald Trump recebeu da Fifa um inédito “Prêmio da Paz”, interveio publicamente para reverter a expulsão de um jogador da seleção norte-americana e viu o torneio se tornar palco de deportações, interrogatórios a jogadores e árbitros estrangeiros e protestos contra políticas migratórias. Se em 1970 a mídia nacional escondia a crise sob a euforia, em 2026 a globalização da cobertura esportiva expõe a instrumentalização, transformando o mesmo instrumento de propaganda também em campo de contestação pública.
Em resumo, governos em momentos de fragilidade política ou de imagem recorrem ao Mundial como vitrine de legitimação, seja pela ideologização interna, pela mercantilização de bens simbólicos, seja pela busca de soft power internacional. O que mudou foi a escala econômica do fenômeno e a velocidade com que a opinião pública global consegue analisar essas estratégias. O futebol segue sendo um âmbito onde economia, ideologia e política internacional se encontram.






