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Mundo em Perspectiva

As Eras de Hobsbawm e os conflitos geopolíticos atuais

Crédito: Oleksandr Latkun / Noun Project

Eric Hobsbawm em A Era dos Extremos deixou definido o século XX como um conjunto de processos cujas consequências continuam moldando o presente. Como aponta o autor, existe um “continuum” temporal em que passado, presente e futuro interagem, de modo que “os acontecimentos públicos [figuram] como formadores de nossas vidas públicas e privadas, razão pela qual o passado é parte de nosso presente permanente”.

Ele dividiu o que chamou de “breve século XX” em três fases: a Era da Catástrofe, marcada por guerras mundiais e crises econômicas devastadoras; a Era de Ouro, caracterizada pela prosperidade do pós-guerra e pela consolidação de direitos sociais; e o Desmoronamento, definido pela fragmentação das certezas, pelo recuo do Estado e pela instabilidade crescente das democracias. Baseado nas obras de Hobsbawm, é possível fazer uma análise sobre os governos atuais, principalmente a respeito das tensões envolvendo Estados Unidos e Irã.

O segundo mandato de Trump insere-se em um processo que Hobsbawm já identificava no Desmoronamento: o desgaste das instituições liberais diante de desigualdades que cresceram ao longo das décadas e nunca foram resolvidas. Quando o Estado de bem-estar recua e quando direitos conquistados passam a ser tratados como privilégios negociáveis, lideranças que oferecem identidade no lugar de direitos e força no lugar de justiça encontram espaço político consolidado. A política externa americana atual, orientada pela coerção e pelo unilateralismo, reproduz o que Hobsbawm descrevia como a tendência das grandes potências a instrumentalizar o direito internacional conforme seus interesses, ignorando-o quando preciso.

A tensão com o Irã representa as contradições do século XX que Hobsbawm analisou com precisão. O país passou por uma intervenção imperialista direta, com o golpe de 1953 orquestrado por Estados Unidos e Reino Unido, e de uma revolução que prometeu emancipação popular e resultou em teocracia autoritária. A rivalidade atual entre Washington e Teerã é resultado dos acontecimentos do século passado: o imperialismo liberal de um lado e o nacionalismo religioso reativo de outro, ambos com históricos documentados de violação aos direitos humanos. Hobsbawm defende a necessidade de questionar as narrativas que transformam esse conflito em disputa moral, e de perguntar, antes de qualquer julgamento, quem efetivamente arca com as consequências.

A resposta a essa pergunta é: a população civil. As sanções econômicas ao Irã, utilizadas como instrumento de pressão política por Washington, penalizam prioritariamente os cidadãos comuns, sem que o regime sofra os mesmos efeitos. No plano doméstico americano, a retórica de Trump sobre imigração, minorias e organismos internacionais como a ONU e a Corte Penal Internacional representa uma deslegitimação dos mecanismos de direitos humanos construída ao longo do século XX. Esses mecanismos surgiram como resposta direta às catástrofes mencionadas por Hobsbawm, definindo que certas violências não deveriam se repetir. Enfraquecê-los significa descartar a custosa luta para definir o surgimento dessas proteções aos direitos humanos.

Hobsbawm pontua o resultado dos processos históricos e não trata os extremos como acontecimentos passageiras. Para ele, as tendências à violência, ao nacionalismo excludente, à guerra como extensão da política e ao retrocesso de direitos são padrões da sociedade. Elas se concretizam quando as instituições democráticas se fragilizam e quando a desigualdade se aprofunda, provando que “a experiência nos ensinou, em nosso século, a viver na expectativa do apocalipse”.

“A opinião deste colunista não reflete, necessariamente, a opinião da RedeTV! Espírito Santo.”

Formada em Relações Internacionais e graduanda em Administração, possui atuação voltada para direitos humanos, política internacional e questões sociais contemporâneas. Pesquisadora na área de políticas públicas e proteção social, dedica-se ao estudo de temas como migrações forçadas, refúgio, gênero e desigualdades.
Integrou iniciativas de acolhimento a refugiados no Espírito Santo e acompanha de perto debates globais sobre questões humanitárias e cooperação internacional.

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