Há vinhos que representam uma vinícola. Outros representam um país. O Cabo de Hornos, elaborado pela Viña San Pedro, pertence a esse seleto grupo de rótulos que ajudaram a consolidar a reputação internacional do Chile entre os grandes produtores de Cabernet Sauvignon.
Visitei o Chile há alguns anos e naquela ocasião visitei 12 vinícolas, nas quais degustei vários vinhos de cada vinícola visitada e em algumas, nos foi servido almoço de harmonização, confesso que ao degustar o Cabo de Hornos me surpreendi positivamente. E desde então tenho observado que este ícone da Viña San Pedro, não é comercializado em terras capixabas. E, curiosamente o Espírito Santo destaca-se historicamente como o maior consumidor per capita de vinhos chilenos no Brasil.
Lançado em 1994, o vinho recebeu seu nome em homenagem ao lendário Cabo Horn, ponto extremo da América do Sul onde os oceanos Atlântico e Pacífico se encontram. Assim como aquele promontório é um símbolo da navegação mundial, o Cabo de Hornos tornou-se um símbolo da viticultura chilena de alta qualidade.
Produzido atualmente com 100% Cabernet Sauvignon proveniente do Vale do Cachapoal Andes, aos pés da Cordilheira dos Andes, o vinho nasce em solos de origem vulcânica e sob grande amplitude térmica entre o dia e a noite, condições que proporcionam maturação lenta, excelente concentração aromática e taninos refinados. O estágio de cerca de 18 meses em barricas de carvalho francês e o longo período de descanso em garrafa antes da comercialização completam sua personalidade elegante e longeva.
Na taça, apresenta coloração rubi profunda, aromas de cassis, cerejas negras, cedro, tabaco, especiarias e delicadas notas minerais. Em boca, revela grande estrutura, taninos sedosos e um final persistente, características que lhe renderam excelentes avaliações da crítica especializada internacional, incluindo 92 pontos da Wine Enthusiast para a safra 2022.
Outro aspecto interessante é a evolução da equipe enológica da Viña San Pedro. Atualmente, o responsável pelo Cabo de Hornos é o enólogo Gabriel Mustakis, que assumiu a missão de preservar o estilo clássico do vinho ao mesmo tempo em que valoriza ainda mais a expressão do terroir do Vale do Cachapoal.
Uma pergunta, entretanto, desperta a curiosidade dos apreciadores capixabas: por que um vinho dessa categoria praticamente não é encontrado em Vitória?
Até o momento, não existe qualquer informação oficial da Viña San Pedro indicando restrição de comercialização para a capital do Espírito Santo. O motivo parece ser exclusivamente comercial. O Cabo de Hornos possui produção relativamente limitada e integra a linha de vinhos ícones da vinícola. Sua distribuição no Brasil concentra-se em importadores e revendedores especializados das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, onde há maior demanda por rótulos de alta gama. Em consequência, muitas distribuidoras regionais acabam priorizando vinhos da mesma vinícola com maior giro comercial, deixando de trazer o Cabo de Hornos para o mercado capixaba.
É uma situação curiosa. Vitória possui um público crescente de apreciadores de grandes vinhos, restaurantes de alto padrão e confrarias bastante atuantes. Ainda assim, um dos maiores ícones da enologia chilena permanece praticamente ausente das prateleiras locais.
Talvez seja o momento de importadores e comerciantes do Espírito Santo voltarem seus olhos para esse grande Cabernet Sauvignon. Afinal, um mercado que valoriza qualidade e cultura do vinho certamente tem espaço para um rótulo que representa mais de três décadas de excelência da Viña San Pedro.
Enquanto isso não acontece, resta ao consumidor capixaba recorrer à compra em lojas especializadas de outros estados ou pela internet para conhecer um vinho que, sem exagero, figura entre os grandes clássicos da moderna viticultura chilena.
Até a próxima semana, mas lembre-se: beba com moderação porque bebida alcoólica e direção jamais se harmoniza.






