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Mundo em Perspectiva

Desumanizar para barbarizar: quem merece nosso luto?

Crédito: Marko Subotin / The Noun Project

Violências coletivas contra determinadas populações começam antes dos bombardeios, das deportações ou dos massacres, isso pois, o primeiro ato de violência é a desumanização. Para que uma sociedade aceite a morte de civis, é necessário que determinadas vidas deixem de ser percebidas como plenamente humanas. Em Frames of War, obra de Judith Butler, ela argumenta que os enquadramentos políticos e midiáticos moldam nossa percepção sobre quem merece proteção, compaixão e luto. Em outras palavras, antes de decidir quem pode morrer, define-se quem merece viver.

Segundo Butler, esses enquadramentos regulam o que vemos e o que sentimos. Certas populações são apresentadas como vulneráveis e dignas de cuidado e outras são constantemente associadas à ameaça, ao perigo ou ao inimigo. Quando isso ocorre, a empatia passa a ser seletiva ou seja, dor de alguns mobiliza o mundo, enquanto a de outros é recebida com indiferença. Assim, é criada a ideia de que há vidas menos importantes e, consequentemente, mais descartáveis.

A guerra em Gaza oferece um exemplo desse fenômeno. Ataques que resultam na morte de civis, incluindo mulheres e crianças, frequentemente são absorvidos pelo debate público como efeitos colaterais inevitáveis do conflito. Os recentes ataques ao Irã, também exemplifica essa situação. Quando uma escola destinada a meninas iranianas é atingida em uma operação militar, a reação internacional muitas vezes se concentra nos cálculos estratégicos da guerra, e não mortes geradas. O que deveria provocar indignação moral passa a ser tratado como uma ocorrência rotineira e as vítimas viram apenas estatísticas. O processo é desumanizar para a violência se tornar aceitável.

Desse modo, além da busca pelo cessar fogo, deve ser impedido de que determinados grupos sejam desumanizados. Pois, quando aceitamos que algumas mortes são normais, inevitáveis ou menos importantes do que outras, abrimos espaço para a banalização da violência.

“A opinião deste colunista não reflete, necessariamente, a opinião da RedeTV! Espírito Santo.”

Formada em Relações Internacionais e graduanda em Administração, possui atuação voltada para direitos humanos, política internacional e questões sociais contemporâneas. Pesquisadora na área de políticas públicas e proteção social, dedica-se ao estudo de temas como migrações forçadas, refúgio, gênero e desigualdades.
Integrou iniciativas de acolhimento a refugiados no Espírito Santo e acompanha de perto debates globais sobre questões humanitárias e cooperação internacional.

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