Nesse mês de março é celebrado o Dia Internacional da Mulher, e vimos, como de costume, uma série de postagens, fotos, homenagens, flores e mensagens de celebração. Mas é importante fazer uma pergunta fundamental: por que ainda é necessário existir um Dia Internacional da Mulher?
Assim como o Dia da Consciência Negra ou o Dia dos Povos Indígenas, essas datas foram criadas como instrumentos de conscientização sobre grupos historicamente marginalizados e vítimas de discriminação pela sociedade. No caso das mulheres, a criação dessa data se justifica pela longa trajetória de desigualdade, violência e exclusão que marcam sua inserção na sociedade.
Há quem argumente que o Dia da Mulher, ou mesmo leis como a Lei Maria da Penha e a Lei Estadual nº 4.733/2006 do Rio de Janeiro para vagão exclusivo feminino, por exemplo, representam “privilégios”. No entanto, essa interpretação ignora a realidade, tais mecanismos são meios de proteção vindos de uma necessidade. Essas medidas surgem como resposta a índices alarmantes de violência, incluindo agressões, feminicídios e estupros.
O próprio Dia Internacional da Mulher tem raízes em mobilizações históricas, como as a Revolução na Rússia em 1917 ligadas à luta por direitos e condições dignas de vida. Assim, a criação do Dia Internacional das Mulheres nasceu da necessidade urgente de reivindicar a igualdade econômica e política para as mulheres, a fim de inseri-las na esfera pública e combater a opressão tanto de classe quanto de gênero.
Ainda assim, a existência da data, por si só, não é suficiente. De pouco adianta a celebração se o a violência e desigualdade contra a mulher persiste. Essa violência continua sendo uma realidade, e o machismo segue presente na sociedade. Observa-se, inclusive, a normalização de discursos de ódio em ambientes digitais, como em determinados grupos e movimentos online, como o movimento Redpill, que reforçam a misoginia e a desvalorização
das mulheres.
Nesse contexto, o crescimento de ideologias conservadoras também levanta preocupações. Pesquisas recentes indicam que ainda há uma parcela significativa de homens que defendem a submissão feminina, reforçando padrões que já deveriam ter sido superados. Em vez de avanços, observa-se, em alguns aspectos, um retrocesso, com a reiteração de visões que colocam as mulheres como inferiores ou subordinadas.
Esse cenário se agrava diante da insuficiência de políticas públicas eficazes. Em alguns casos, decisões institucionais evidenciam a baixa prioridade dada à pauta, como orçamentos irrisórios destinados a ministérios e projetos, voltados à proteção das mulheres, como mostra a decisão do governador Tarcísio de Freitas em São Paulo ao destinar orçamento de R$ 10,00 o projeto de Educação em Direitos Humanos, esse que auxilia acolhimento e proteção as mulheres. Desse modo, é evidenciado o descaso e, por vezes, até deslegitimação do problema.
É importante reconhecer o problema uma vez que os dados evidenciam que a grande maioria dos casos de violência sexual é cometida por homens, e as vítimas são majoritariamente mulheres e crianças. Ignorar esse fato é obscurecer a dimensão do problema.
Diante disso, o Dia Internacional da Mulher não deve ser tratado como data simbólica e sim como um momento de reflexão e, sobretudo, de cobrança. Qual é o papel da sociedade diante dessa realidade? O que está sendo feito, na prática, para proteger mulheres?
No Espírito Santo, essa discussão se torna ainda mais urgente. O estado apresenta índices alarmantes de violência contra a mulher, segundo a Ales, ocorreram nos dois primeiros meses de 2026 em média 87 casos por dia, estando entre os Estados que mais registram feminicídios no país. Nesse cenário, é fundamental questionar: quais políticas estão sendo implementadas? Quais projetos existem hoje? E, principalmente, quais deles têm apresentado resultados concretos?
Sem respostas efetivas, a data corre o risco de se esvaziar de sentido, se tornando uma data transformada em produto, para as mulheres serem apenas presenteadas pela mesma sociedade que as violenta.






