Mundo em Perspectiva

Inteligência artificial, tecnologia e a normalização da misoginia digital

Foto: Reuters

Com a ampliação do acesso à tecnologia e da criação das redes sociais como um meio de expressão nos últimos anos, observa-se a forma de como as redes sociais vêm sendo apropriadas para a reprodução e amplificação do machismo. Ferramentas de inteligência artificial tem sido utilizadas por homens para solicitar a remoção virtual de roupas de mulheres em fotografias comuns, pedido como esse vem ocorrendo no Gook, IA do X (antigo Twitter), transformando imagens comuns em imagens pornograficas simbolizando a violação contra mulheres. Ao mesmo tempo, o uso de óculos com câmeras ocultas para gravar mulheres sem consentimento, em espaços públicos ou privados, e a publicação dessas imagens em perfis nas redes sociais com públicos totalmente masculino, evidencia uma a normalização da misoginia digital.

Esse fenômeno é uma prática social sustentada por estruturas de poder que envolvem gênero, tecnologia e cultura digital. Segundo Safiya Noble (2018), algoritmos não apenas refletem preconceitos sociais, mas podem intensificá-los quando operam sem responsabilidade ética.

A tecnologia ela carrega os valores, hierarquias e violências da sociedade que a produz, esses que sempre existiram, mas agora são mediados por plataformas digitais.

A exposição não consentida de imagens, a sexualização forçada e a ridicularização pública operam como mecanismos de disciplinamento. Ao transformar interações cotidianas em espetáculo para audiências masculinas, essas práticas reforçam a ideia de que mulheres não tem lugar na sociedade, nem em espaços físicos e nem seus corpos não pertencem plenamente às mulheres.

Do ponto de vista dos direitos humanos, esse cenário evidencia um descompasso entre o avanço tecnológico e a proteção da dignidade. A ausência de consentimento, o uso de imagens como forma de intimidação e a conivência de plataformas que lucram com engajamento misógino revelam uma falha estrutural de governança digital. Tais conteúdos de misoginia online é uma violência de gênero, com impactos na saúde mental, na liberdade e na participação pública das mulheres.

A Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW) estabelece a obrigação de prevenir e punir atos que comprometam a dignidade, a segurança e a igualdade das mulheres, inclusive quando praticados por atores privados. Mais recentemente, a ONU Mulheres e o Relator Especial da ONU sobre Violência contra a Mulher têm reconhecido a violência digital como extensão das violências de gênero tradicionais, com impactos reais sobre a liberdade de expressão, a participação política e a autonomia feminina.

Desse modo, exige-se regulação, responsabilização das plataformas e atualização das normas jurídicas frente ao crescimento da misoginia atrelado ao uso da tecnologia. Se a falha em proteger as mulheres passa a ocorrer também no âmbito virtual, os avanços como inteligência artificial, que na teoria deveriam trazer avanço para a sociedade, corre o risco de se tornar apenas mais uma ferramenta de reprodução das desigualdades que historicamente limitam a autonomia feminina.

 

“A opinião deste colunista não reflete, necessariamente, a opinião da RedeTV! Espírito Santo.”

Formada em Relações Internacionais e graduanda em Administração, possui atuação voltada para direitos humanos, política internacional e questões sociais contemporâneas. Pesquisadora na área de políticas públicas e proteção social, dedica-se ao estudo de temas como migrações forçadas, refúgio, gênero e desigualdades.
Integrou iniciativas de acolhimento a refugiados no Espírito Santo e acompanha de perto debates globais sobre questões humanitárias e cooperação internacional.

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