Foto: REUTERS/Seth Herald
Nas últimas semanas temos visto as ações do governo estadunidense em combater a permanência de imigrantes “ilegais” no país. Para isso, os agentes do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA, conhecidos como ICE, passaram a deter possíveis pessoas que vivem de maneira irregular nos Estados Unidos. Segundo o presidente americano Trump, o objetivo é que sejam deportados criminosos e pessoas sem a devida documentação para estar no país, mas o que ocorre é a larga perseguição à pessoas que não seguem o fenótipo americano/euroupeu, mesmo a aqueles estão no país de forma legal.
Essas ações resultam na disseminação do medo dentro do país e a aqueles que pertencem a certo grupo racial, que passaram a temer pela sua segurança de suas famílias.
Há cerca de 70 anos atrás, Hannah Arendt, filósofa e refugiada judia, já analisava governos com ações semelhantes ao atual governo Trump. A disseminação do medo e repressão da liberdade de expressão e do direito de estar em um país onde sua existência não é ameaçada (por fatores econômicos, sociais, etc…), espelha uma tentativa de dominação do governo em que a liberdade deixa de ser o princípio organizador da vida pública e é substituída por um regime político extremo que objetiva a destruição da condição humana (Arendt, 1975).
Analogamente, essas práticas estatais que normalizam a exclusão jurídica, a desumanização administrativa e a suspensão seletiva de direitos não reproduzem o totalitarismo histórico observado em governos passados, mas ativam mecanismos semelhantes aos que Arendt descreveu como precursores da dominação total.
Ademais, segundo Hannah Arendt, o objetivo do sistema totalitário não é governar homens livres, mas produzir “marionetes”, indivíduos incapazes de pensar e agir autonomamente, tais como agentes estatais e apoiadores das atitudes do atual governo americano, que deixam de ver minorias como pessoas e passam a vê-los como ameaça.
Assim, essa lógica é reforçada pois imigrantes e refugiados estão deixando de serem tratados como sujeitos de direitos e passam a ser reduzidos a categorias administrativas, números ou ameaças abstratas à ordem nacional. Políticas de detenção em massa, deportações aceleradas e separações familiares refletem uma racionalidade que visa retirar desses grupos sua condição plena de pertencimento político mascarado por um discurso de controle de fluxo de imigração.
Em seu depoimento, um jovem chamado Mubashir, descreveu que enquanto andava pelas ruas, foi abordado por agentes do ICE, mesmo sendo americano naturalizado, ao alegar que era um cidadão americano, os agentes não solicitaram sua identidade, apenas o prenderam, de forma violenta, uma pessoa que estava dentro da lei, evidenciando a prática racista por trás da intenção de controle imigrantes irregulares no país.
O racismo, em contextos não totalitários, pode permanecer difuso e fragmentado. Torna-se politicamente devastador quando articulado pelo Estado, integrado a programas oficiais e sustentado por uma ideologia que legitima a exclusão (Arendt, 1975).
Discursos que associam imigração a criminalidade, decadência cultural ou ameaça existencial encorajam para políticas repressivas. Quando tais discursos emanam do mais alto escalão do poder político, a discriminação deixa de ser socialmente marginal e passa a ser institucionalmente validada.
Nesse sentido, políticas migratórias severas se sustentam por aparatos burocráticos inteiros, que executam decisões desumanizantes sob o argumento de que “apenas cumprem a lei”.
