Dentre inúmeras manchetes diárias, algumas crises parecem distantes demais para ocupar nossa atenção. Há diversos alertas que passam despercebidos mas, devido a sua gravidade, não podem ser ignorados: os conflitos em curso em diversas partes do mundo.
Até pode parecer que a atenção está sim voltada a esses conflitos, com diversas notícias sobre atualizações sobre a Guerra da Ucrânia ou Israel x Palestina. Porém há guerras tão fatais ocorrendo há anos em lugares como Líbano, Sudão e Síria sendo configuradas como emergências humanitárias graves e silenciosas, que para fugir do conflito, já obrigaram milhões de pessoas a deixarem suas casas e se tornarem refugiadas em outros países.
Panorama das guerras atuais
Síria
O conflito sírio teve início a partir da Primavera Árabe em 2010, quando o povo sírio, ativistas e civis começaram uma série de protestos exigindo melhores condições de vida e direitos políticos e sociais. Eles clamavam pela renúncia do presidente autoritário Bashar al-Assad, cuja família estava no poder desde a década de 1970.
Os protestos foram reprimidos pelas Forças Armadas, e com o surgimento de grupos opositores ao governo como o Exército Livre da Síria (a maior força armada de oposição a al-Assad) e a Frente Al-Nusra (ramificação da Al-Qaeda), a onda de protestos culminou na Guerra Civil Síria em 2012.
Após anos de conflitos, com a queda de Bashar al-Assad em dezembro de 2024 após grupos rebeldes invadirem a capital síria, Damasco, os cidadãos esperavam que finalmente os anos de conflito tivessem terminado. Mas, as tensões permaneceram à medida que em março de 2025, o novo governo a perseguir civis alauítas, minoria religiosa apoiadora do governo deposto.
Após anos de guerra civil e com a atual instabilidade política, a situação da Síria se agrava ainda mais, com cerca de 13,5 milhões de refugiados e mais de 275 mil vivendo em abrigos sob condições de extrema pobreza (ACNUR, 2025).
Sudão
O conflito atual no Sudão teve início em 15 de abril de 2023, como resultado do embate os líderes militares das Forças Armadas Sudanesas (FAS), lideradas pelo General Abdel Fattah al-Burhan, e das Forças de Apoio Rápido (FAR), lideradas pelo General Mohamed Hamdan Daglo, esse que demonstrou resistência quanto a integração das FAR nas FAS, decisão tomada em prol da reforma de setor de segurança.
Atualmente, as FAR recebem apoio dos Emirados Árabes Unidos (EAU) e Rússia (através dos mercenários do Grupo Wagner) e da Etiópia. Enquanto isso, as FAS recebem apoio do Egito, Arábia Saudita e Irã. Internamente, há tentativas de negociações de paz pela Coordenação das Forças Democráticas Civis, que também busca a inclusão civil nas negociações de paz. Há tentativas humanitárias de assistência, porém, devido ao caráter do conflito, a chegada de ajuda é dificultada.
Resultado desse conflito foi 10 milhões de sudaneses deslocados internamente, principalmente da capital Cartum, onde está concentrado o conflito. A crise humanitária no Sudão tem o maior número de deslocados internos, e devido à extrema fome, muitos civis não resistem.
Líbano
O conflito libanês não é recente mas, se agravou em outubro de 2023, quando o Hezbollah começou a disparar foguetes e drones contra o norte de Israel apoiando o Hamas quanto aos ataques israelenses ao território palestino.
Em 1978, Israel ocupou o sul libanes e 4 anos depois, ocupou a capital do país acirrando sua rivalidade. Nesse contexto, surge o Hezbollah, sendo financiado pelo Irã e assumindo o papel de uma força de resistência contra a ocupação israelense.Israel e o Líbano, que já possuem uma rivalidade antiga, voltam a intensificar seus ataques um contra o outro após essa reação contra os ataques em Gaza.
Em resposta, Israel lançou uma série de bombardeios aéreos e em outubro de 024 invadiu o Líbano, objetivando as bases do Hezbollah no sul do Líbano
Esses ataques resultaram em milhares de vítimas, incluindo centenas de civis e crianças, além do deslocamento massivo de população e destruição generalizada de infraestrutura. O Lebanon já possui o mais número de refugiados per capita, sendo grande parte desses, os sírios. Com o país sendo refúgio de outras pessoas e com o conflito atual, o número de vítimas se torna cada vez maior e a situação de vulnerabilidade dessas pessoas cresce significativamente.
Por que não vemos essas guerras?
Muitos desses conflitos não chegam com a mesma força aos noticiários por uma combinação de fatores. Há uma preferência da mídia por guerras pois fomenta o sentimento humano de voltar atenção ao chocante, emotivo e inesperado que são consideradas fontes de prestígio no jornalismo. A decisão por conflitos que receberam cobertura é diversa é realizada de maneira intencional ou não.
Primeiro, existe o filtro da geopolítica: guerras que envolvem diretamente grandes potências ou que possuem grande peso político e econômico recebem cobertura constante, enquanto crises em países considerados periféricos tendem a ser ignoradas.
Também há o fator da concorrência informacional que, em meio de tantas notícias, conflitos prolongados acabam “sumindo” diante de eventos mais espetaculares ou localizados em regiões que afetam mais o política internacional, como o conflito na Síria, que ocorre há 13 anos com impactos devastadores.
Por exemplo, o conflito no Sudão é amplamente descrito como uma “guerra sem fim à vista” que tem ocorrido sem cobertura midiática, devido à concentração da mídia nos conflitos armados entre a Rússia e a Ucrânia e entre Israel e Gaza. Isso pois, existe uma solidariedade e comoção seletiva, em que e a falta de sensibilidade com as minorias étnicas e países subdesenvolvidos ocorrem e denunciam uma desumanização dos veículos de comunicação.
Em suma, a mídia tende a priorizar conflitos que se alinham com os valores da mídia ocidental e agendas políticas, muitas vezes resultando em uma cobertura enviesada que supervaloriza certas vidas e regiões em detrimento de outras, como as do Oriente Médio e da África.
Milhões em cena: o impacto humano e respostas humanitárias
Por trás de conflitos políticos, há pessoas inocentes sofrendo. Em números são:
- Mais de 20.000 sírios morreram desde 2014 ao tentar atravessar o Mediterrâneo em busca de refúgio. Os refugiados que conseguem abrigo vivem em condições desumanas, superlotação e sem o básico em campos de refugiados.
- Cerca de 61.000 vítimas apenas no estado de Cartum, capital do Sudão. Além do uso da violência de gênero (estupro) e fome como táticas de guerra.
- 1,2 milhão de pessoas no Líbano precisando de ajuda humanitária.
Mas, não podemos pensar nessas pessoas apenas como estatísticas, o direito à proteção e condições dignas de vida é garantido por diversos atores internacionais e nacionais. A Organização Mundial das Nações Unidas (ONU), criada em 1945, visa além de manter a paz e a segurança internacional, recuperar os direitos fundamentais dos homens (como liberdade e segurança), e promover o progresso econômico e social de todos os povos. Sua Carta prega a tolerância e a convivência pacífica entre os povos.
Já o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) atua em 135 países com o objetivo principal de garantir que os países estejam cientes de suas obrigações de conferir proteção aos refugiados e a todas as pessoas que buscam refúgio. Seus papéis incluem acolhida humanitária imediata, prover acolhimento, abrigo e integração para que os forçados a deixar seus lares tenham uma vida digna e segura.
Pode parecer distante, mas essas emergências estão ligadas ao mundo todo, inclusive ao Brasil. A lei brasileira que regula sobre esse tema é a Lei nº 9.474, de 22 de julho de 1997, conhecida como Lei de Refúgio. Essa lei garante direitos aos refugiados em terras brasileiras como o direito de permanecer no país e receber documento de identidade provisório enquanto o pedido de asilo é analisado, direito ao trabalho, estudo e saúde e proibição de devolução (non-refoulement) ao país onde sua vida ou liberdade esteja em risco. A lei deu origem à fundação do CONARE (Comitê Nacional para os Refugiados), vinculado ao Ministério da Justiça, responsável por analisar os pedidos e decidir sobre o reconhecimento da condição de refugiado.
O país já reconheceu oficialmente milhares de refugiados sírios, sudaneses e de outras nacionalidades em situação de conflito. Em terras capixabas, a presença de refugiados, sobretudo venezuelanos, mostra como o deslocamento forçado é uma realidade próxima. Os refugiados que vêm à procura de asilo no Espírito Santo, principalmente na Grande Vitória, tem apoio do NUARES que tem como objetivo apoiar refugiados e solicitantes de refúgio no estado.
Diante de tantos conflitos e deslocamentos forçados ao redor do mundo, é fundamental lembrar que a proteção aos refugiados não é apenas uma questão de política internacional, mas também de solidariedade.
