Por Dra. Elisângela Moura Cozzer
Durante muito tempo, fomos ensinados a corrigir o rosto. Ajustar, preencher, alinhar. A estética passou a operar quase como uma linha de produção: rostos cada vez mais semelhantes, expressões cada vez mais neutras, identidades diluídas em padrões. Em algum momento, o excesso deixou de ser exceção e passou a ser regra.
É nesse cenário que a desarmonização facial surge não como retrocesso, mas como consciência.
O que antes era tratado como tendência estética começa a ser questionado publicamente por quem vive sob os holofotes. Celebridades como Gessica Kayane Rocha de Vasconcelos (Gkay), Scheila Carvalho, Eliezer do Carmo e Gracyanne Barbosa Viana assumiram a decisão de reverter procedimentos, não por arrependimento, mas por não se reconhecerem mais no próprio rosto. O gesto é simbólico e potente: trata-se de retomar a própria identidade.
A desarmonização não fala apenas sobre retirar preenchedores. Ela revela um esgotamento silencioso: o cansaço de rostos que perderam a capacidade de expressar emoções, histórias e singularidades. Rugas, linhas e pequenas assimetrias não são falhas técnicas — são registros de vida.
Defendo aqui uma bandeira ainda pouco levantada: a da estética com responsabilidade emocional. Uma estética que escuta antes de intervir, que respeita limites, que entende que sutileza também é ciência e que dizer “não” pode ser, muitas vezes, o maior cuidado profissional.
Desarmonizar não é desfazer a beleza. É devolvê-la ao seu lugar de origem: a identidade. É reconhecer que nem todo volume é necessário, nem toda simetria é saudável, nem toda tendência precisa ser seguida.
O futuro da estética não está em transformar rostos, mas em preservá-los. Em permitir que cada pessoa envelheça, sorria e se expresse sem se perder de si mesma.
O rosto também cansa. E talvez o maior avanço da estética contemporânea seja justamente aprender a respeitar esse cansaço — com técnica, ética e humanidade.
